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4 de setembro de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x09: VAMPIROS EMOCIONAIS



Anteriormente em Desapaixonante...


Depois que Milena descobriu toda a verdade a respeito de seu relacionamento com Ivan, ela teve ajuda de Sávio para localizar as outras mulheres com quem o empresário se relaciona. Milena levou Ivan até um local ermo, onde o deixa algemado a uma cadeira e começa a confrontá-lo. Quando ele pensa que pode convencê-la com suas palavras, eis que Milena lhe surpreende ao chamar as cinco moças, deixando, assim, o grupo das seis namoradas formado e pronto para um confronto ainda maior. O que será que vai sair desse encontro?
Confira agora os desdobramentos disso.


(Milena)

Vendo aonde minha vida chegou com os últimos acontecimentos, me deparo com o fato de que eu nunca senti tanto nojo de alguém como sinto agora pelo Ivan. Diversas vezes afirmei por aí que senti nojo por uma ou outra pessoa, mas o sentimento é diferente agora. Me faz entender que o máximo que senti por essas outras pessoas foi só uma chateação, um aborrecimento que, a bem da verdade, não me atingiu tanto assim. A diferença é bem mais latente e disso não me resta a menor dúvida.
Algemado à cadeira com cara de cachorro abandonado, ele mal consegue nos encarar, estampando uma seriedade inquietante. Preocupado, talvez? Diante dele, nós, os seis prêmios, os seis troféus que ele conquistou com bons truques e lábia de malandro sedutor. Dos bons, vamos admitir. Mas tudo ruiu, meu querido Ivan.
Ele baixa o rosto para evitar nossos olhos.
“Olha pra nós, seu bosta!”, avança uma das namoradas, de nome Rosane. Uma japa de uns 32 anos com cabelos médios pintados de loiro e, assim como eu, de corpo rechonchudo.
Rosane levanta o queixo de Ivan, a contragosto dele. Ainda assim, ele mira o olhar em outra direção.
“Eu ainda tô com esperança de que isso tudo seja uma grande pegadinha, sabia?”, Rosane começa a se prantear, ainda buscando a atenção dele. Sua voz sai meio gaguejada.
“Infelizmente não é”, suspiro. “Ele tinha acabado de assistir ao vídeo de vocês quando eu as chamei. Em nenhum momento ele negou que tava se relacionando com todas nós. Ele só disse que...”
Detenho minha fala. A próxima coisa que eu ia dizer pode machucar essas mulheres mais ainda. Eu as trouxe aqui, mas desconheço meus próprios limites em ter de lidar com elas, se ficarem extremamente alteradas ao saber que o namorado dissera que elas não significam nada perto de mim. Até eu esclarecer que ele só estava tentando me ludibriar com esse papinho, quem me garante que não seria danoso para elas ter de ouvir isso?
“O que foi que ele disse?”, Ágata, a veterinária alta, de pele negra e corpo aparentemente bem trabalhado em academia, percebe que eu me interrompi.
“Nada”, desconverso. “Agora, nada do que ele diz tem qualquer significado decente”.
“Fala comigo, negão!”, pede Valéria, aproximando-se de Ivan. Ela é uma moça branca de cabelos curtos com uma franja enorme que praticamente oculta os olhos verdes como azeitonas. “Me explica essa história, porque eu não tô acreditando que você fez isso com a sua Val”.
“Por que você fala assim com ele?”, irrita-se Ágata. “Não tá vendo que ele é só mais um homem lixo, igual a muitos outros? Parece que tá com pena”.
“Anda, negão, por favor...”, mas Valéria ignora. Analisando bem, ela de fato demonstra estar com mais pena do safado do que de nós, do que de si mesma.
Uma das mulheres, a universitária Cyntia, se mantém imóvel, chorando copiosamente e em silêncio, com uma das mãos sobre o rosto. Morena, cabelos ondulados até o meio das costas, não deve ter mais de 1,60. Outra que só observa, com uma expressão dura feito pedra é Juliana Maia, que a propósito é minha prima por parte de mãe. Esguia, cabelos longos e cacheados presos num rabo-de-cavalo, olhos muito arredondados atrás de um par de óculos de grau. Uma pessoa com quem eu tive pouco contato na vida, mas nunca tivemos uma relação ruim. No entanto, a vida acha engraçado nos juntar para descobrir que estávamos nos relacionando com o mesmo homem.
Um churrasco de domingo teria sido uma ideia melhor, viu, vida? Até um chá de panela, que eu geralmente acho entediante, seria muito mais aceitável. Fica a dica pra próxima...
“Moças”, eu me pronuncio, “eu não tive a intenção de chamar vocês aqui pra humilhá-las e constrangê-las. Mesmo porque, se fosse por isso, eu também seria uma das humilhadas e constrangidas. E é claro que o fato de vocês estarem aqui não vai desfazer o fato de que fomos humilhadas e constrangidas, mas...”
“Por que é que você tá falando como se fosse uma espécie de líder nossa?”, Valéria me interrompe em um tom que mistura desprezo e protesto.
“Deixa ela falar”, repreende Rosane, um pouco mais refeita do choro, dando lugar a uma aparência de “revolta moderada” agora.
Antes de prosseguir, lanço um olhar severo para Valéria, mas tento incrementá-lo com um pouco de solidariedade e empatia, afinal ela também é uma vítima do vampirismo emocional empregado por Ivan. Algumas mulheres vítimas de vampiros emocionais simplesmente levam mais tempo do que as outras para sentirem que foram sugadas, então já vi que preciso ser paciente com Valéria. Desde aquele vídeo-documentário eu notei que ela não é uma pessoa muito fácil.
“Bom, como eu ia dizendo”, continuo, “eu quis trazê-las aqui pra juntas mostrarmos a este respeitável senhor... Peraí, peraí, ‘respeitável senhor’ não se enquadra bem, então... crápula mesmo. Meu objetivo é mostrar pra ele que ele está perdendo tudo numa só tacada. Todo o engano que ele nos fez passar está se acabando agora, mais rápido que poeira ao vento. E se alguma vez ele achou que tinha seis mulheres nas mãos, é necessário que ele testemunhe de perto cada uma pulando fora desse barco, que somos mulheres fortes e não importa a relação que cada uma teve com ele ou o tempo que durou, o que ele nos fez foi imperdoável”.
“Eu dediquei três anos da minha vida. Três anos servindo de trouxa enquanto ele comia vocês a torto e a direito, e depois voltava pra mim como se eu fosse a única e mais especial do mundo”, resmunga Ágata, ao que ganha um olhar ligeiramente chocado das outras. “Desculpa o linguajar, mas o que é que eu posso dizer? É verdade, ué. E o pior é que ele conseguiu me convencer, isso que é o mais revoltante”.
“Fala comigo, desgraçado!!”, Rosane pega Ivan pelo colarinho da camisa. Claramente, ela é a mais destemperada. Ou então as outras ainda estão acanhadas em descer o cacete no mentiroso.
“Esse cara não merece o nosso estresse, Rosane”, tento confortá-la. Ela baixa um pouco a guarda, soltando-o, mas segue com alguns xingamentos.
“Vocês me desculpem, mas eu vou pra casa e depois marco um encontro com o Ivan pra conversar”, diz Valéria, a difícil. “Não faz sentido discutir com o meu namorado na frente das amantes”.
“Amantes?!”, Ágata se afeta. “Pois fique sabendo que eu sou muito mais namorada dele do que você, queridinha. Já são três anos juntos, completamos no dia 10 de abril. Mas não que eu queira me vangloriar dessa merda agora”.
“O que foi que você disse?”, rebate Valéria, começando a se encolerizar. Dirige-se até Ivan. “Negão, é verdade isso? O aniversário de namoro de vocês é no dia 10 de abril? A mesma data que o nosso, negão? É sério isso?”
O clima só vai ficando mais tenso e cada vez mais a gente vai ampliando a consciência de que a cafajestice de Ivan já beirava algum tipo de psicose. Dois aniversários de namoro no mesmo dia podem parecer coisas pequenas, mas se pararmos para avaliar que outros fatos ainda estão encobertos e o quão pouco conhecemos da real personalidade de Ivan, torna-se assustador. O cara não tem um pingo de decência, minha gente.
Mas eu tô bem confiante. E eu sei que essas mulheres são fortes e, juntas, vamos cravar hoje aqui a bandeira da nossa independência emocional.
“Gente, não é hora desse tipo de discussão”, intervenho. “Se duvidar, ele tá até se segurando pra não rir da nossa cara. Não tem essa de quem é a ‘mais namorada’ ou ‘menos namorada’. Vamos nos lembrar que ele teve com cada uma de nós uma história, uma relação independente. Ele nos usou de maneira igual. Todas fomos igualmente sacaneadas”.
“Eu vou pedir um Uber e ir embora”, finalmente Cyntia, que estava se debulhando em lágrimas, se manifesta. Seus lábios estão contraídos e ela revela no rosto o tanto que está machucada.
“Mas já?”, não quero acreditar. Não posso deixar isso acontecer. “Acho difícil ter um carro disponível pra essas bandas. Deixa que eu te levo, não tem problema”.
Ela volta ao silêncio, me deixando incerta se vai aceitar minha carona, mas pelo menos parece que vai dar um tempo dessa ideia.
Ivan continua impassível, espero que remoendo sua vergonha.
Viro-me para falar com as cinco mulheres e, embora Valéria tenha usado o termo “líder” de forma pejorativa, é assim que eu estou me portando no momento. É como se, mesmo compartilhando da mesma tapeação, eu estivesse com os olhos um pouco mais abertos e até um pouco mais sóbria. Os poucos anos atuando como agente da ANNA devem ter me treinado para esse tipo de situação e poder recorrer a uma frieza conveniente. Tá difícil, mas tô conseguindo.
“Eu quero que vocês venham comigo, por favor”, anuncio.
Elas se entreolham. Está claro que estou querendo fazer uma pausa no nosso confronto direto ao Ivan, então pressupõe-se que a coisa por aqui ainda vai demorar um pouco, e elas não parecem nada animadas com a proposta. Todas devem estar morrendo de vontade de correr para suas casas e, sei lá, quebrar alguma coisa (tipo eu na sala dos desafios da Aurora) ou até mesmo buscar um abraço amigo e se afundar de chorar nos ombros de uma pessoa confiável.
Elas precisam do tempo delas. E eu lhes darei isso, é óbvio. Entretanto, preciso ensiná-las a ter um pouco mais de força, sobretudo a demonstrar essa força na frente desse canalha e deixá-lo ciente de que as coisas vão mudar drasticamente. Tudo bem, ensinar soa prepotente da minha parte, então que eu pelo menos consiga inspirá-las, trazer um pouco de luz às suas mentes, me fazer ouvida. Ivan não pode, em hipótese alguma, sequer sentir o cheiro de fragilidade e vulnerabilidade saindo de alguma delas. Ivan é perigoso e só Deus sabe o que ele pode fazer com uma mulher sugestionável e disponível às suas artimanhas.


“Muito bem”, digo.
Agora estamos todas sentadas ao redor de uma mesa de madeira bem grande, dessas onde se fazem grandes almoços de família. Para ser mais precisa, aqui é um sítio que pertence à família Kerber, então pedi emprestado aos meus avós paternos dizendo que ia receber alguns convidados e precisava de um lugar afastado da cidade. Logo, essa mesa é, de fato, onde sempre rolaram muitos almoços de família, dos mais memoráveis aos mais enfadonhos. Mas não é hora de nostalgia, então...
O objetivo alcançado envolveu drogar Ivan e trazê-lo em meu carro (dentro do porta-malas, um pouco exagerado, eu sei), desencorajando-o a fugir, portanto a distância e o fato de ele estar sem um veículo próprio. É o que explica todo esse espetáculo.
“Em primeiro lugar”, continuo, “Cyntia, por que você quer ir embora?”
“O quê?”, ela se surpreende. “Ora, isso é problema meu!”
Seguro a vontade de bufar de aborrecimento. Outra Valéria não, né? Paciência, Milena, paciência!
“É, você tá completamente certa. Tem todo o direito de ir embora e realmente não é problema meu. Mas e como vai ficar essa situação aqui? Vai esperar o Ivan ir atrás de você pra conversar? Você sabe o que ele vai fazer, não sabe? Vai tentar te manipular e fazer você esquecer o que ele fez”.
“Eu sei”, ela baixa um pouco a bola. Aleluia! Após um longo suspiro, continua: “Eu só tô me sentindo muito desagradável aqui. Vocês não têm ideia do choque que ainda tá na minha cabeça”.
“É mesmo, é?”, ironiza Ágata, ao que Cyntia olha em volta e percebe que essa é a realidade de todas nós. Afunda na cadeira de vergonha.
“Eu sei que ele traiu todas nós, mas cada uma sente de um jeito diferente. E falando por mim, eu simplesmente não quero mais ficar aqui. Agora que eu sei que é tudo verdade, não quero lidar com isso agora”, explica Cyntia. “Eu nunca... eu nunca tinha namorado um homem como ele. Sempre tão gentil, tão atencioso... Achei que era um presente de Deus e... Nossa! Até falei isso naquele vídeo... Como eu posso ter sido tão tonta? Se eu pudesse me enterrar, sabe...”
E Cyntia volta a chorar.
“Ele se mostrou o mesmo homem irresistível pra todas nós, Cyntia”, comenta Ágata, amigavelmente. “Não sei onde ele aprendeu isso, mas ele pegou todas as características de um bom homem e manipulou tudo pra fazer a gente de besta, porque nós mulheres temos a tendência a ser românticas, umas mais e outras menos, mas sempre em algum grau. E ele soube ser romântico na medida certa, assumindo o papel de  um príncipe. O máximo que ele fez foi alterar algumas coisas no comportamento pra ir se adaptando a cada uma de nós. Ele se vendeu conforme o gosto do freguês. Ou melhor, das freguesas. E nós gostamos tanto do... ahn... produto, que nos lambuzamos inteiras e lambemos os dedos e ficamos de barriga cheia. E eu sinceramente espero que principalmente essa última parte seja só linguagem figurada”.
“Aprendi com isso que não se deve confiar nas pessoas”, ressalta Rosane, encarando o nada.
“Não se trata de não confiar nas pessoas”, refuto. “Na verdade, tem mais a ver com o cuidado que devemos ter na hora de confiar em alguém. O que a gente tá aprendendo aqui é que esse é um lance delicado pra caramba, e que tá longe de ser uma coisa fácil. Nem todas as pessoas são indignas de confiança, nem todos os homens são indignos de confiança. Mas estamos aprendendo aqui a ter mais cautela”.
“Às vezes a vida dá umas lições muito duras, e nem quer saber se você tá preparado ou não. Ela simplesmente joga a bomba no teu colo e Deus que te proteja!”, endossa Ágata.
Isso, garotas!! Que bom que a gente está se entendendo.
“E nós seis precisamos nos unir. Nenhuma é a amante que tem de ser odiada pela oficial, porque não existe oficial e não existe amante, entendem?”, discurso. “Trouxe vocês aqui pra gente combinar de ficar unida contra ele, não ficar de picuinhas umas contra as outras enquanto o cara tá lá olhando”.
“Já combinamos isso antes de virmos pra esse sítio, lembra?”, retruca Rosane.
“Lembro, claro, mas você viu muito bem o que tava acontecendo lá no galpão. Estavam jogando fora todo o combinado”.
“Acho que a gente tem de dar a chance dele se explicar”, alega Valéria, mais para se opor do que para realmente contribuir.
“E nós vamos fazer isso”, enfatizo, “mas eu precisei chamar vocês aqui antes da gente continuar dando pressão nele, porque eu vi que vocês ficaram desestabilizadas quando ficamos todas juntas ali”.
“Uma vez ele me fez vestir uma fantasia de enfermeira antes do sexo. Posso botar ele de enfermeira também?”, brinca Ágata, apesar de... bem... hummm... acho que ela não tá brincando, não.
“Ai, pelo amor de Deus! Vê se poupa a gente dessas besteiras ridículas! Não sou obrigada a aturar isso. Uma mulher nessa idade, tenha paciência!!”, reclama Valéria, e dessa vez concordo um pouco com ela, ninguém quer ficar imaginando as estripulias sexuais de ninguém, ainda mais nessas circunstâncias.
Ágata põe as mãos na cintura, boquiaberta, e com o olhar eu a faço entender que é inútil discutir com Valéria. Ágata resigna-se, então, a falar sobre outra coisa:
“Eu não vou devolver o Bombom”, determina ela, referindo-se ao cachorro que ganhara de Ivan certa vez. “Talvez eu mude o nome pra algo que não lembre o infeliz, mas o cachorro é honesto e não vai me trair. E se me trair, pode jogar o mundo no lixo porque não serve mais pra nada”.
“Como eu vou encarar os meus amigos? Todo mundo sabe que eu tava namorando, já tinha apresentado o Ivan pras minhas melhores amigas”, queixa-se Rosane. “Eu sei que elas vão me apoiar e tentar me ajudar, mas eu vou ficar pra sempre com essa fama horrível. Meu Deus, isso é tão degradante!! Depois dessa, não vou mais querer saber de homem tão cedo”.
Olhando para ela, sinto acender uma faísca que me traz à tona uma lembrança um tanto distante, da noite em que Rita Lina “morreu”, durante a despedida que eu tava dando para o meu pai em casa. Na ocasião, eu havia convidado Tatiana, uma antiga colega dos tempos do Santo Cristo, no que era meu plano de ajudar o Sávio a se desapaixonar da Anna pela segunda vez. Quando Tatiana finalmente chegou à minha casa, ao se deparar com o Ivan, ela soltou uma pergunta que agora faz tanto sentido que dá vontade de berrar pra mim mesma: “burra, burra, burra, buuuurrraaaaa!!!”. Ela lhe perguntara se ele não era o “namorado da Rosane”, o que gerou um pequeno constrangimento na hora, afinal quem gosta de ser confundido assim? Mas nunca se tratou de confusão coisíssima nenhuma. A verdade já havia tentado me estapear no meio da cara e o meu alerta não deu nem uma piscadinha. Agora imagino que o furico do Ivan deve ter ficado de um jeito que não passava nem um átomo quando Tati o reconhecera.
No entanto, vou guardar essa minha “nova descoberta” só pra mim mesma, porque preciso manter minha postura diante das moças. Deus me livre me descontrolar aqui!
Juliana, minha prima, atrai minha atenção por estar muito quieta, praticamente não interage. Vez ou outra esboça algumas reações. Como psicóloga, compreendo que devemos respeitar a forma como cada pessoa reage a uma determinada circunstância, mas até onde consigo me lembrar da personalidade da Ju, ela não é exatamente uma pessoa retraída. Até vídeos pro Youtube ela faz frequentemente, toda eloquente e desenvolta, apesar de alguns conteúdos sem-noção, como quando ela participou de um tal desafio em que tinha de comer várias coisas aleatórias depois de batidas no liquidificador. Fiquei tipo “hã”?! Mas relevei, afinal em tempos de likes e views, tá valendo praticamente tudo. As mais de 20 mil visualizações foram mais do que suficientes pra mim.
“E você, Ju?”, tento um contato. Vai que ela está agindo como eu na sala dos desafios, isto é, prestes a explodir e mandar tudo abaixo. Conhecendo a vovó Kerber, se ela sonhar com alguém sequer arranhando algum de seus pertences, é capaz de arrancar nosso couro com uma mão e nos estripar com a outra, enquanto faz tricô com os pés.
“Eu tô aqui na minha”, responde ela, procurando ser o mais evasiva possível.
“Você tá querendo dizer alguma coisa? Pode se abrir, todas nós somos aliadas”.
“Não, não, eu... só tô processando os fatos”.
“Se for melhor pra você, a gente pode entrar e falar em particular”, insisto.
Ela me responde com um sorriso apenas.
“É verdade que vocês são primas?”, indaga Rosane.
Respiro fundo, porque sei como parece. Piora o fato de que Ivan não só pegou o tanto de mulheres que pegou ao mesmo tempo, como dá a ele o “crédito” de ter engambelado duas mulheres da mesma família.
“É verdade sim”, confirmo.
“Isso não é nada”, resmunga Valéria. “Ele teve a cara de pau de iniciar um namoro no mesmo dia em que nós comemoramos o nosso aniversário de namoro. Querem mais canalhice que isso?”
“Eu achei que já tinha passado a parte das briguinhas infantis”, irrita-se Cyntia.
Ela levanta e xinga um palavrão que faz meus pelos do braço se eriçarem. Se o pastor dela presenciasse a exuberância com que ela se expressou agora, provavelmente teria um ataque do coração depois de exclamar alguma frase religiosa. Contudo, na situação em que estamos, é o mínimo que se espera.
“Vamos voltar pro galpão e aí cada uma vai poder dizer o que quiser pra ele, dizer tudo o que está sentindo e que decisões vai tomar. Combinado?”, digo, a fim de evitar que essas mulheres percam ainda mais as estribeiras.
Exalo toda essa positividade, apesar de saber que o que está acontecendo hoje não é nada perto do que há de vir. A pior parte de quando um coração é partido não é o momento em que ele se parte, mas todos os dias que vêm depois, em que a pessoa fica remoendo e sentindo morrer por dentro todas as ilusões criadas entorno do amor e seus derivados. Inevitavelmente, minha mente cruza com a ideia de suicídio. Sinto um arzinho congelante na espinha. Não que eu me mataria, mas o quanto de fragilidade existe na alma de cada uma dessas mulheres? O quanto elas poderão suportar? Quem me garante que Ágata, por exemplo, que aparenta estar um pouco mais lúcida em relação às outras, não chegará em casa e pendurará uma corda no pescoço e dará cabo de si mesma? Aquele trauma que eu tive com um cliente sempre me assombrará toda vez que eu duvidar que certas atitudes drásticas podem ser tomadas. Ou toda vez que eu achar que uma pessoa está bem, quando algo me disser que não está.
Começo a reconsiderar se foi uma boa trazê-las aqui. O que eu fiz? Uma maneira de me vingar do Ivan? Essa é tão-somente a minha maneira de fazer isso ou de fato estou preocupada com as emoções alheias e só quero proporcionar a essas moças um momento de dignidade ao colocá-las diante de seu defraudador de sentimentos? O confronto é necessário?
O quanto do meu problema eu estou resolvendo me utilizando da conveniência de que este problema é compartilhado com outros cinco seres humanos? Estou fazendo isso por mim ou por nós?
“Concordo. Vamos!”, diz Rosane, levantando-se e encorajando as outras a fazer o mesmo.
Não deixo de notar que Valéria ainda não foi convencida de que faz parte do sexteto mais iludido da face da terra. Ela sustenta no olhar uma expressão um tanto indecifrável, mas nada que me faça pensar que ela está confortável com isso.


Quando voltamos, Ivan está mais sereno. Ainda cultiva a cara de falso inocente, porém com mais plenitude, como se não pudesse fazer nada além de aceitar que foi pego. É de se admirar que ele não pareça mais tão desesperado, dado o fato de que está há pelo menos uma hora algemado a uma cadeira e, a julgar pela maneira que se mexe de vez em quando, está desfrutando de um belo desconforto.
“Nós seis combinamos que vamos deixar você se explicar”, informo.
Ele não diz palavra.
“Não que isso vá fazer alguma diferença”, continuo, “mas é pra te mostrar que não somos tão indecentes quanto você”.
Ele me encara. Depois volta-se para as outras, e é encarado por elas de volta. Na certa tentando adivinhar qual é a mais vulnerável, a menos blindada, para então fazer alguma investida para tentar desmantelar a união de nosso grupo.
Ivan suspira, faz uma careta dando a entender que gostaria que eu o desalgemasse.
“Não vou te soltar. Todas nós estamos muito satisfeitas em te ver assim”.
“Milena...”, ele fala meu nome em tom de súplica, como se quisesse me convencer de que agi com infantilidade ao prendê-lo, mas eu tô cagando pra isso.
Vendo que não vai dar em nada, ele solta mais um suspiro e, enfim, resolve falar mais:
“Bom, já que é assim... É pra agradecer a chance que estão me dando de poder me explicar?”
“Debochado!”, surpreende-se Rosane, erguendo as sobrancelhas.
“Esse safado não tá arrependido nem um pouquinho”, acusa Ágata.
“Gente, não!”, ele faz uma mesura com a cabeça, como se estivesse se desculpando. “Não é por aí, tá? Não vamos ficar nos ofendendo, por favor. Vamos nos resolver como adultos. A verdade foi exposta mesmo, não é? Não vou ficar tentando bancar o inocente, porque eu fui um cretino e isso já tá mais do que provado. Então vamos conversar sem baixaria e sem violência”.
“Sem violência, com certeza, né? Tá com medo da gente descer a porrada em você?”, zomba Ágata.
“Ágata, por favor...”, insiste Ivan.
“Ágata, por favor!!”, ela o arremeda usando uma voz aguda, como se fosse uma criancinha choramingando, mas na verdade está com sangue nos olhos. “Por favor o que, hein? Por favor o quê? Vai querer que a gente te perdoe pela safadeza? Vai querer que a gente volte pra casa e simplesmente esqueça o que você fez com a gente? Aqui tem seis mulheres, seu porra! Seis mulheres, entendeu? Você brincou com seis mulheres, não foi com seis robôs ou seis brinquedos. Debaixo dessas carnes tem corações que batem, que sangram e que sonham. E você, seu merda de uma figa, tripudiou em cima de cada um desses corações, como se a gente não passasse de um grande pedaço de nada. Usou a gente como se nós fôssemos uma das suas porcarias de coleções, cretino miserável. Você tem noção do que você fez? Hein? Tem noção, caralho?”
Ágata se aproxima dele enquanto berra outros impropérios e, do nada, recua. Tá aí o que eu temia: a mulher que, depois de mim, parecia a mais determinada e ciente de que pertence ao lado das vítimas e que brigaria com unhas e dentes até o fim, começa a desmoronar. E seu choro começa tímido, mas logo desata num ruído esquisito, porém pueril, como se fosse uma garotinha muito assustada. Ela vem até mim e meu primeiro impulso é apenas abraçá-la.
É lamentável ver que não começamos bem.
“Eu tenho noção, Ágata. Eu sei o que eu fiz. Eu fiz por puro prazer, eu brinquei realmente com os corações de todas vocês, e isso não tem perdão”, Ivan responde, sério e amargurado. “Mas você tem que entender que eu sou doente. Todas vocês precisam entender que eu sou doente. Psicologicamente doente”.
“Tava demorando a usar uma desculpa dessas”, comenta Rosane.
“Se você tem consciência de que é doente, por que não pediu ajuda?”, questiona Cyntia, outra vez me surpreendendo com sua manifestação.
“Porque faz parte da doença eu enganar a mim mesmo de que não preciso de ajuda”.
“Ah, tá”, Ágata se solta de mim. “Você acha que a gente cai nessa?”
“Vocês precisam acreditar em mim. Essa é a história. Essa é a verdade”.
“Verdade é uma coisinha complicada de acordo com o seu histórico, Ivan”, rebate Cyntia.
O que é isso no rosto dele? Lágrimas?
“Era só o que me faltava, agora ele vai chorar”, Ágata fica ainda mais irada. “Vamos arrancar o couro desse patife, meninas, talvez dê pra fazer umas bolsas com ele”.
Caminho para mais perto dele, no intuito de controlar melhor a pequena balbúrdia que se formou depois que ele afirmou que é doente e começou a botar pra fora essas lágrimas de crocodilo.
“Ivan, doente ou não, a gente não tem culpa alguma disso. Se você é doente como tá falando, vai procurar um tratamento, ao invés de ficar seduzindo mulheres e fazendo elas acreditarem que você é um homem sério e de caráter. Tudo que nós queremos agora é saber o porquê de ter feito o que fez, e se essa tal doença é o seu porquê, então o assunto se encerra por aqui e cada um vai pro seu canto, e isso inclui você ficar longe de nós e nunca mais nos procurar”.
“Qual é o nome da sua doença, negão?”, indaga Valéria, fazendo as vezes de mãezinha preocupada. Sabe aquela mãe que vive passando desgosto com o filho, mas está sempre de braços abertos? Então. A condescendência dessa mulher estraga tudo, além de me enojar.
“Eu... eu não sei...”, responde ele, lançando a ela um olhar afetuoso, certo de que encontrou em uma de nós o amparo necessário para semear mais mentiras. “Eu nunca parei pra pesquisar sobre isso, pra me informar... Mas eu sei que é uma doença. Que tipo de pessoa faria o que eu fiz? Que tipo de pessoa enganaria pessoas assim, a ponto de ter seis namoradas? Vejam bem, se vocês puderem me entender, escutem muito bem, prestem atenção, por favor! Não era uma namorada e cinco amantes. Eram seis namoradas. Namoradas! Eu tinha todas no mesmo patamar, na mesma estima. Eu nunca traí vocês, de fato. Eu apenas omiti que estava amando e me relacionando com seis mulheres simultaneamente. Isso não parece uma doença pra vocês? Dá pra acreditar que uma pessoa faria tudo isso deliberadamente em plena sanidade? Meninas, isso aqui é um desabafo, é um puro pedido de socorro. Eu tô admitindo que eu tenho um problema. Eu preciso de ajuda!”
“Puta que pariu!”, esbraveja Ágata, fazendo voar gotículas de saliva. “Você ouviu o que acabou de dizer, Ivan? Porra, dá pra acreditar num cara desses? Eu não acredito que você tem tanta cara de pau pra dar uma justificativa dessas”.
“Mas é verdade, Ágata. É como um vício. Posso dizer que eu sou viciado em mulheres. É isso! Eu sou viciado em mulheres. Desde a primeira vez que me envolvi com mais de uma mulher ao mesmo tempo, foi como se eu tivesse provado uma droga e depois não consegui me libertar. É a única explicação”.
“Você mente e nem treme”, observa Rosane.
“O que vocês querem? Um laudo médico? Querem que eu vá me consultar com um psiquiatra, sei lá, e prove que eu tenho uma doença? Não seja por isso. Amanhã mesmo eu tomo todas as providências e aí vocês vão ver que eu não estou mentindo. Mas por enquanto, meninas, eu só posso pedir perdão e dizer que eu tô muito, muito arrependido”.
Valéria olha para ele, comovida e agora até ela está começando a chorar.
“Valéria, você tá acreditando nele?!”, me deixo pasmar.
“Ele... ele... tem uma doença. Será que você não vê?”
“Valéria, não!”, reclamo e a puxo pelo braço. Segurando em seus ombros e olhando-a no fundo dos olhos verde-escuros, digo com toda a firmeza possível: “Você não veio aqui pra deixar barato, Valéria. Já chega desse seu comportamento de ficar dando muito espaço pro Ivan. Olha o que ele tá fazendo com você. Você precisa se impor, precisa se posicionar. Não deixa ele manipular você, Valéria! Não deixa!”
Ela faz uma careta de zangada, sacode os ombros para que eu a solte, e se afasta um pouco do grupo. Espero que isso seja apenas o sinal de que ela aceitou minhas palavras, mesmo a contragosto.
“Apesar de tudo”, retoma Ivan, “eu tô feliz que isso aconteceu. Quero dizer, eu tô feliz que vocês descobriram sobre isso. Sabe, eu já não aguentava mais ter de esconder que eu amo seis mulheres incríveis. E sabendo que nunca teria a compreensão de ninguém, tive de esconder isso todo esse tempo. Eu me senti mal pra caramba, meninas, vocês nem fazem ideia. Agora eu me sinto liberto desse peso. Os segredos morreram. Finalmente eu me sinto aliviado por poder ser mais verdadeiro, apesar de vocês estarem me odiando por isso”.
Ele se mexe outra vez, tentando me sensibilizar a respeito das algemas. Não dou a mínima.
“Sabe, se vocês topassem, nós sete poderíamos ser felizes juntos. Sim, é verdade. Já ouviram falar de poliamor?”
“O quê?”, surpreendo-me. “Você não pode estar falando sério!”
“Acho que ele desistiu do papo de ser doente”, diz Ágata.
“Não é um bicho de sete cabeças”, replica ele, e suas lágrimas mentirosas agora dão lugar a um sorriso se formando. “Se vocês pesquisarem, vão ver que muita gente já pratica o poliamor. A princípio, a tendência é encarar com preconceito mesmo, mas a ideia não é ruim”.
“Poliamor? Peraí, você tá insinuando que deveria formar, tipo assim, um harém com a gente?! E que a gente deveria aceitar isso numa boa?”, indaga Rosane.
“O poliamor dá certo porque os seres humanos não nasceram pra monogamia, Rosane. Vocês me acossaram hoje aqui, mas se tivessem de fazer isso com cada homem que trai ou pelo menos cogita trair, não sei se iria sobrar algum homem decente aos olhos da sociedade. Acreditem em mim! A maioria dos pais, tios, irmãos e primos de vocês são uns safados com um monte de fantasias e desejos escondidos que vocês não conseguem nem imaginar. Alguns são extremamente talentosos em se disfarçar de bons sujeitos, carinhosos, acolhedores, amigos, mas dentro deles existem verdadeiras feras famintas que não se contentam com apenas uma mulher. O problema é que poucos são pegos, como eu fui. Mas é assim desde sempre, e sempre vai ser. A proposta do poliamor evitaria certas dores de cabeça, vocês não acham?”
“Você é sujo, Ivan!”, acuso. “Como você tem coragem de fazer esse showzinho com lágrimas e tudo, dizer que é doente e depois vir com uma proposta indecorosa assim? Você é o pior exemplo de homem lixo que eu já tive o azar e o desprazer de conhecer, e dificilmente vou conhecer outro assim”, despejo, num misto de pena, fúria e revolta. Chego bem pertinho dele e me agacho para dizer: “Não adianta tentar fazer a nossa cabeça, Ivan. Não adianta tentar fazer joguinhos com a gente. Nós viemos até aqui muito decididas a pôr um fim nessa história tão nefasta que você criou. Hoje é o dia que Ivan Castro está sendo derrotado, e por enquanto eu até que tô de boa em acabar com você apenas assim, mas se você continuar tentando fazer esses jogos mentais com essas mulheres, eu vou te expor em público de um jeito que você vai ter de mudar de planeta pra tentar encontrar uma nova namorada de novo”.
Dessa vez ele não desvia o olhar, o que, aliás, me deixa incomodada. Ele claramente não está mais se portando como o Ivan que deixamos aqui antes de irmos discutir ao redor da mesa dos meus avós.
“Você tá mesmo disposta a terminar comigo, Milena?”, ele cochicha pra mim, enquanto as outras cinco estão comentando alguma coisa ou simplesmente xingando ele. “Depois de todo esse tempo juntos, aprendendo a ser amada de novo? Depois do tanto que eu te ajudei, de todo o apoio que eu sempre te dei? Sabe, eu tenho uma curiosidade: quem é que você vai achar pra substituir a sua mamãezinha morta dessa vez, hein?”
“O que você tá falando, seu escroto?”, pergunto, mas sinto a garganta secar repentinamente.
“É isso mesmo que você ouviu, Milena. Nossa! Você acha que eu mereço ser abandonado depois de ter que ouvir você se lamentando tanto que perdeu a mãe quando era adolescente, que o meu amor e o meu carinho te ajudaram a lidar com esse peso que você carrega até hoje, com essa solidão, com esse vazio? Quantas vezes você se lembrou dela e da falta que ela te fez e faz, mas eu estava lá pra te abraçar e te proteger? E o seu pai, Milena? Hum? Tão distante, tão indiferente... Mas o meu beijo não. O meu beijo, o meu toque, as minhas palavras... Ah! Eu nunca te abandonei como seu pai fez com você, não foi? Vai negar isso agora? Vai deixar a nossa história pra trás assim, tão fácil? Por que você não lutou por mim em vez de fazer todo esse espetáculo aqui? Quem vai te consolar, Milena? Quem vai te deixar pra cima e te fazer se sentir linda e maravilhosa com as palavras certas? É isso mesmo que você quer?”
Maldito desgraçado. Maldito desgraçado!! Ai, que vontade de socar a cara desse puto até deixá-lo desfigurado!!
“Boa tentativa, Ivan”, sussurro, com um leve tremor nos lábios, e ele deve ter visto isso. Me bate um alívio enorme por não ter gaguejado, porque de alguma forma ele encontrou uma passagem para me atingir bem na ferida certa. Quanto menos ele souber que conseguiu me balançar, melhor.
Levanto-me e me afasto, fulminando-o com um ódio controlado, disfarçado, mas muito latente no meu íntimo.
“Tem uma coisa errada no vídeo que você mostrou, Milena”, Ivan fala alto, propositadamente para chamar a atenção de todas.
Ele passa o olhar por cada uma de nós, mas se detém em Juliana, minha prima.
“A história de como a Juliana me conheceu tá errada”, explica ele.
Juliana empalidece instantaneamente. E eu tenho a mais forte impressão de que vai dar merda.
“Sabe por que a história tá errada?”, Ivan continua atiçando.
“Ivan, cala a boca!”, ordena Ju, corando de vergonha e raiva.
Mas Ivan não se importa:
“Porque essa pessoa que ela tá descrevendo no vídeo é o verdadeiro namorado dela. O oficial, vamos dizer assim. Não é verdade, Ju?”
É automático: todas nós compreendemos de imediato o que está acontecendo aqui. E eu não tô querendo dar o braço a torcer e acreditar nisso.
“Juliana”, me volto pra ela, que já está com o rosto mais vermelho e agora molhado, “isso não é verdade, né? Pelo amor de Deus, Juliana, não me diz que você fez uma burrada desse tamanho! Juliana do céu!”
“Que reviravolta, hein, gente!”, exclama o cínico. “No fim das contas, eu é que era amante de alguém aqui”.
“Ju...”, me ponho de frente à ela.
“Confesso que você me enganou por mais tempo do que eu esperaria de alguém, viu, Ju? Só fui descobrir no ano passado. Quem diria, hein! Três anos sendo usado como um escape barato. Mas nem por isso eu te larguei, não foi? Ah, essas coisas que a gente faz por amor...”, ele conclui, dando de ombros. “Mas eu perdoo você, Ju, do fundo do meu coração”.
“É verdade!”, ela nem hesita e confirma a história, com ira plantada em sua cara. Mas, por alguma razão, sei que não está brava comigo. Muito provavelmente consigo mesma, provando o sabor ácido e cruel de ter se autossabotado.
“Caramba...”, lamento, deixando meu semblante cair.
“Mas eu terminei com meu namorado faz cinco dias”, argumenta ela, se atropelando nas palavras, provavelmente sentindo o mundo girar e o chão sob seus pés sumirem. “Eu confessei tudo pra ele e dei um fim no relacionamento. Tudo pra poder ficar com o Ivan e me livrar da culpa pelo que eu fiz. Aí eu me deparo com isso!”, ela estende o braço para Ivan e faz uma meia-lua abrangendo as outras e eu.
“Cacete!”, exclama Ágata, mas sem alterar a voz, apenas se dando conta da virada que acabamos de sofrer.
“Menina, você é louca?”, Rosane se precipita contra Juliana, e eu me ponho entre elas.
“Calma, Rosane, por favor! Calma!”
“Louca por quê?”, responde Juliana. “Eu cometi um erro mesmo, é verdade. Por acaso você nunca cometeu algo tão idiota? Você acha que eu me orgulho disso? Eu não sabia que ele era esse tipo de homem! Além do mais, eu tomei a coragem de assumir pro meu ex-namorado o que eu tava fazendo e tomei uma decisão. Tarde demais, mas tomei. Você acha que foi fácil?”
“Quem disse que é tarde demais, Ju?”, diz Ivan, com a voz mansa. “A gente ainda pode ficar junto. Eu ainda amo você”.
“Cala a boca!”, ordeno a ele.
Eu amo todas vocês, meninas. E eu ainda tenho tanto amor pra dar pra vocês, que é quase uma fonte inesgotável. Todas vocês são especiais pra mim, por isso que eu nunca consegui escolher só uma. É uma pena enorme que meus sentimentos não sejam compreendidos. Eu sinto muito, muito mesmo”.
“CALA A SUA BOCA, IVAN! CALA A MERDA DESSA BOCA!”, esbravejo, retomando a firmeza de outrora que eu havia perdido quando ele atacou meus pontos fracos.
“Olha aqui, Milena!”, é Valéria quem sai em apoio dele, apontando um dedo contra mim. “Eu já falei antes e vou repetir: quem te escolheu como líder? Sei que eu não escolhi. E eu posso falar e pensar por mim mesma. E eu acredito em tudo que esse homem diz, porque ninguém jamais me amou e me fez tão feliz do jeito que ele me fez. E por causa disso eu sou capaz de passar por cima de qualquer coisa”.
“Essa mulher só pode estar delirando”, fala Ágata. “Você vai perdoar toda essa humilhação? Vai assinar em baixo que ele te usou e deixar tudo por isso mesmo? Tem mulher que nasceu pra sofrer, viu?”
“Ele não me usou, sua intrometida”, retruca ela, visivelmente transtornada. “Mas o mínimo que eu devo ao Ivan é um pouco de compreensão pelo vício que ele tem. E querem saber de mais uma coisa? Até que essa história de poliamor não me parece tão ruim. Desde que eu continue com o meu negão, tô pouco me lixando pras outras. Em dois anos que ele ficou comigo e com vocês, posso afirmar com toda a certeza que eu fui muito mais feliz do que todas as minhas amigas com seus namorados e maridos monogâmicos, que provavelmente são apenas uns hipócritas que não podem assumir o que realmente são pra sociedade”.
Valéria parece um papagaio perfeito, que assimila e reproduz tudo o que seu dono ensina. Ela, então, se aproxima de Ivan, acaricia seu rosto e profere as palavras que selam sua fragilidade e, por conseguinte, a do grupo:
“Eu quero continuar com você, negão”.
“Obrigado, meu amor”, corresponde ele, o olhar reluzindo.
Ele sorri e ela o beija. Valéria nunca esteve do nosso lado.
Não sei se é um erro da minha parte, mas decreto desistência dessa mulher.
“Acho que você já pode me soltar, Milena”, diz ele, desta vez usando um tom normal de voz, sem grandes emoções, como quem pede um café numa padaria.
Minha face está petrificada, enquanto se processam na minha mente diversas emoções conflitantes. Valéria vem até mim com a cara mais cínica do que a de Ivan e, sem articular palavra, me estende a mão. Tiro a chave das algemas do bolso e, dando uma última encarada nela com o máximo de decepção que eu consigo, entrego-lhe. Esforço em vão, porque ela retorna a ele com a empolgação de uma garota maníaca de cinco anos de idade que vai abrir um presente de natal.
Livre, a primeira reação de Ivan é massagear os pulsos, enquanto Valéria o abraça com uma paixão irracional, incontida, dedicada. Ágata, Rosane, Cyntia, Juliana e eu estamos estáticas, provando o gosto amargo daquilo que eu considero uma bela traição. Na certa, depois ela vai relatar a ele tudo o que conversamos, e talvez até rirão de nós, mas nada tira da minha cabeça que Valéria se arrependerá de maneira tão dolorosa de ter ido por esse caminho.
Minha veia feminista coça de tanta inquietação por testemunhar uma mulher se entregando a um macho desprezível como este e ver que não tenho mais forças para impedi-la. Não haveria caminhos tão espinhosos se não houvesse pés dispostos a trilhá-los.
“É realmente uma pena que tenha de terminar assim”, declara o maldito. “Mas antes de ir embora, gostaria de dizer pela última vez que... Bom, eu fiz o que eu pude pra dar todo o carinho e amor que cada uma de vocês precisava. Foi tudo sincero. Sei que ainda é confuso pra vocês, mas tudo que eu fiz pra agradar vocês sempre foi de coração, viu? Obrigado pelos momentos maravilhosos que...”
Rosane o cala com uma bofetada que ressoa por todo o galpão. Valéria rosna cheia de ódio, começa a se descontrolar e faz menção de revidar o tapa, mas Ivan a impede a tempo.
“Tudo que eu quero agora”, diz Rosane, “é que você vá à merda, Ivan! Vai se foder!”
“Vai se foder você, gorda escrota!”, grita Valéria, me causando ainda mais nojo e agora um pouco de medo. Ela é totalmente desequilibrada.
“Tudo bem, Val”, ele intervém. “Tá tudo bem, é natural ela agir assim. Vamos embora daqui. Você tá de carro, né?”
“Tô sim, negão. Quer dirigir?”
“Com esses pulsos doloridos? Acho melhor não, amor”.
“Espera!”, outra vez Cyntia se manifesta, e outra vez numa hora em que eu não estava esperando.
Cyntia parece estar tomando coragem para dizer algo. Hesita por um momento, passa a língua sobre os lábios ressecados, até que desembucha:
“Eu ainda tenho um semestre de faculdade”, timidamente ela se abre. “E eu não tenho ninguém pra me ajudar. A situação do meu pai ainda tá péssima e... eu tô desesperada...”
Ivan anda até ela, e minha visão demora a crer, mas Cyntia não faz o menor esforço para resistir e permite que ele a abrace e acaricie seus cabelos.
“Não precisa mais dizer nada, Cycy! Eu não vou te abandonar agora, tá? Eu amo você!”
“Não acredito, Cyntia”, digo, estupefata.
Ivan puxa-a para mais perto, delicadamente, e Cyntia ergue o rosto para beijá-lo. Ela solta um suspiro tão longo que fica claro que também continua cegamente apaixonada e a saudade que estava sentindo por ele é maior do que toda a mágoa. Por mais que tenha dado a desculpa da faculdade, dá pra ver pelo brilho nos seus olhos que Ivan lhe lançou uma espécie tão poderosa de feitiço que ela simplesmente não saberia como seria a vida sem esse namoro. Mesmo que tenha de passar pela humilhação de dividir o namorado com uma maluca.
“Você é evangélica, Cyntia”, reúno o resto de forças que tenho, pois acredito que Cyntia é mais sensata que Valéria. “O que a sua família pensaria de você se te visse se rebaixando dessa maneira? Espiritualmente falando, você não vê o quanto essa relação é nociva?”
“Desculpa, Milena”, responde ela, “mas eu não quero que você se meta mais na minha vida”.
“Vamos embora então!”, convida Valéria, estranhamente feliz em saber que vai partir daqui com um namorado que será compartilhado.
“Eu vou com vocês”, dispara Juliana.
“Ah, não!”, reprovo, já sem paciência. “Você não, Juliana! Eu não posso deixar a minha prima sair daqui com essas pessoas. Se a Cyntia e a Valéria optaram por se render a esse demônio, pra mim é uma questão de honra defender você de embarcar nessa furada”.
Paro diante dela, agarro-a pelos braços, encarando-a.
“Juliana, você é melhor do que isso”, argumento. “Sua vida não vai acabar só porque vai ficar sem o Ivan. Você é uma mulher jovem, bonita, talentosa pra caramba... Ainda tem muita coisa pra viver, muita coisa pra aprender. Logo você vai conhecer um cara bem mais legal, que te mereça e te respeite, você vai ver... É sério, Ju! Por favor, confia em mim!”
Uma sombra de dúvida queima em seus olhos. Não posso desistir. Ela é minha prima!
Por favor, Juliana! Você viu como ele deixou todas nós. Ele é um cara manipulador, mentiroso, traidor... Não cai na dele, Juliana, por favor! Por favor, prima! Fica com a gente!”
E então ela me direciona um olhar. Um olhar profundo, cheio de uma mensagem que me machuca quando eu consigo captá-la. E aí eu sei o que significa, mesmo que ela fique em silêncio enquanto gentilmente afasta minhas mãos de seus braços, talvez para não me magoar (ainda mais). Ela está silenciosamente me pedindo para que a deixe seguir a vida sem intervenção, sem tentativas de ajuda da minha parte. Juliana é um ano mais nova que eu, então tem idade mais que suficiente para fazer suas próprias escolhas. E mais uma vez eu preciso lidar com uma decepção no grupo das seis.
“Desculpa”, Juliana murmura, com o rosto tristonho, tão baixinho que eu na verdade estou em dúvidas se ela disse mesmo isso.
Afinal, ela deve estar imaginando que, depois de todo o trabalho para terminar um longo namoro e confessar ao seu ex que era uma traidora, a essa altura do jogo não importaria que ela assumisse uma relação que na verdade já estava vivendo, mesmo que não tivesse consciência do fato antes de hoje.
Ivan recebe Juliana com um abraço apertado e um beijo na testa, que depois migra para a boca.
A julgar pelas desagradáveis surpresas que tive com três das meninas, lanço um olhar vagamente preocupado para Ágata e Rosane.
“Nem pensar que eu volto pra esse traste”, determina Ágata.
“Só se eu estivesse desmemoriada e bêbada”, arremata Rosane.
Abraçado às três namoradas que lhe restam, Ivan ainda tenta soar como um homem de boa índole. Tem o porte perfeito de um político corrupto tentando se safar de suas falcatruas de estimação.
“Hoje aprendemos uma lição. Eu, com certeza, muito mais. A partir de hoje, serei um namorado ainda melhor para essas mulheres maravilhosas que resolveram continuar essa caminhada comigo. Eu prometo a cada uma de vocês, meninas, que vou fazê-las ainda mais felizes do que já fazia. Vamos embora daqui, meus amores?”
Os quatro nos dão as costas, seguindo rumo à saída do galpão.
Observo de longe, mas é como se meus olhos estivessem apenas cumprindo uma função automática. O que eu sinto, agora, é o meu coração rachando e começando a se partir em mil pedaços por dentro, prestes a virar pó de puro desgosto e frustração.


Rosane pegou uma carona com Ágata e eu resolvi ficar um pouco mais. Bebi quase um litro de água, me sentei numa poltrona velha na sala da casa, me coloquei a pensar por mais ou menos uns trinta minutos, mergulhada em vários “e se”, tentando não me culpar pelas coisas terem saído como saíram.
Já anoitece quando pego o carro e dou a partida. Ligo o som e, no pendrive que já estava conectado, começa a tocar uma música muito melancólica do Abba, The winner takes it all. Ótimo, tudo o que eu tava precisando, de uma trilha sonora para o meu desalento. O celular vibra: uma mensagem no Whatsapp, recebida quinze minutos atrás.

No fim das contas, você não me derrotou, Milena.
Mas parabéns pelo empate.
Bjs!

Então, depois de presenciar com tanta lástima aquelas mulheres caindo em prantos e sofrendo horrores, para terminar como terminou, eu desfaleço, largando o celular de qualquer jeito no banco do carona. As lágrimas arrebentam as cercas dos meus olhos e desaguam em enxurradas bravas, desenfreadas. Choro de soluçar, esmagada, arrasada. Sim, é assim que eu me sinto: o retrato fiel de uma pessoa arrasada. Mesmo não entendendo direito porque isso está doendo tanto, me destruindo tanto por dentro, eu choro. Não me preocupo se o lamento vai acabar ou quando; eu aproveito a solidão e a distância que me acompanham aqui neste lugar e deixo a alma se retorcer na forma desse líquido morno e salgado. E não me deixo silenciar. Eu tenho esse direito! Eu tenho todo o direito de chorar em alto volume, de deixar à vista os meus rasgos através do meu pranto. Uma hora o meu coração iria me cobrar por isso, e enquanto a noite avança sobre a minha cabeça e me enlaça como a única amiga que me resta depois de toda a luta que eu travei, eu sinto como se fosse impossível sobreviver a tudo isso.
Às vezes, o preço que você paga por querer se desapaixonar por alguém é tão brutal quanto o próprio instinto natural de permanecer viva. Quero dizer, tem vezes que é árduo e insuportavelmente doloroso cortar ligações com uma pessoa, e você se vê sangrando como se estivesse sendo pisoteada por um monstro invisível, impetuoso, que sabe que, se insistir, ele pode até te levar à implacável derrota enquanto te estrangula e te obriga a encarar seus olhos frios e diabólicos.  
Mas eu sei que eu vou sobreviver. Ah, sim, eu bem sei.
O choro é só uma passagem...


24 de maio de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x08: A HISTÓRIA DE IVAN CASTRO



(Ivan)

Tempos atrás

Não vim até esse bar para ouvir esse camarada achar que está arrasando cantando Lady in red. O bom disso é que nesse meio-tempo posso decidir se desisto de pedir uma cerveja e me mando ou se continuo aqui, persistindo, embora saiba que pode não ser uma boa ideia. Me disseram que é aqui que ela se apresenta. E acontece que eu já não aguento de saudade e vontade de vê-la.
Uma garçonete uniformizada com uma blusa polo exibindo a logo do bar e um sorriso muito forçado anota meu pedido. Percebendo as rápidas caretas que ela faz a cada sílaba que eu pronuncio, volto a cogitar a possibilidade de voltar para casa. Detesto ser o tipo de pessoa que se atenta para gestos corporais e, por conseguinte, acaba se deixando levar pela compreensão desses gestos.
E, meu Deus, esse cara precisa chorar tanto nessa música?
Examinando atentamente, ele está chorando mesmo. Suas bochechas mostram rastros de lágrimas rolando sem a menor cerimônia. Será que a canção lhe traz memórias de um amor mal resolvido, talvez uma dama de vermelho insensata ou inalcançável tenha lhe revirado a cabeça?
Devaneios... As coisas às quais a mente se agarra para passar o tempo e tentar lidar com as complicações da realidade.
Pedi uma cerveja e um prato de tira-gosto: isca de peixe frito com molho rosé e batatas fritas. Não é o tipo de programa ao qual estou acostumado, ainda mais sozinho, mas quando se está apaixonado de um jeito tão intenso, você é capaz de sair da sua zona de conforto com mais frequência do que gostaria, sentindo-se seguro ou não. Qualquer loucura é justificável. Até o que não se justifica.
O cantor de Lady in red finaliza sua performance, saca um lenço do bolso e passa os próximos minutos enxugando as lágrimas e assoando o nariz. Tudo ao mesmo tempo.
Não conheço ninguém por perto e a cerveja já veio e já está acabando. Nada dela. Será que virá mesmo?
Uma onda de excitação me invade. Um sentimento de aventura proibida que me faz ponderar se eu realmente quero levar isso adiante.
Ouço um violão sendo afinado. Ela chegou. Ocupa a cadeira que antes fora usada pelo cantor chorão; seu violão apoiado sobre as pernas e a maneira tão graciosa como maneja o instrumento. Natasha está tão bonita que, agora, não há nada que me convença a arredar o pé desse bar.
“Boa noite! Eu sou Natasha Pellegrini e vou fazer um voz e violão pra vocês. Vamos lá?”
Os primeiros acordes soam e sou levado a contemplá-la maravilhado pela sua habilidade delicada de musicista. É como observar uma flor desabrochando, testemunhar o momento certo em que um botão de rosa se abre. Você simplesmente deixa um instante como este te preencher e sua vida gira em torno desse único evento.
Natasha tem nome forte de artista e, mais do que isso, seu talento é inegável. Desde a época da escola. Desde a época em que eu já era caído de amores por ela. É desde essa época que eu venho guardando segredo sobre isso e, mesmo sendo muito tarde para tocar nesse assunto com ela, eu estou aqui.
A última música foi “Quem de nós dois”, da Ana Carolina. A cerveja que eu havia pedido no início está choca, mas pouco me importa. Tenho a impressão de que a única pessoa atenta à apresentação de Natasha sou eu. Muito provavelmente estou certo, pois a maioria das pessoas não vêm a um bar para ficar olhando os cantores. Elas vêm para um happy hour, encher a cara, trocar uma ideia. A música é um aperitivo à parte, apenas para embalar a noite.
Natasha me vê, bem como eu planejei antes de vir pra cá. Sentado a uma mesa escolhida justamente para ser visto do ângulo de onde ela estava, aceno quando ela me sorri.
“Que surpresa, Ivan!”, ela se aproxima.
Natasha está com os cabelos pretos soltos, em ondas que emolduram seu rosto e me convidam para acariciá-los, mas a sanidade me vence e eu me porto decentemente:
“E aí, Natasha? Tudo bem?”
“Sim, e você?”
“Tô legal. Gostei da apresentação”.
“Que bom!”, ela solta o sorriso fatal, que acaba com o meu coração. Mas infelizmente ela não sabe disso.
Sorrisos irresistíveis podem levar homens apaixonados a fazer besteiras.
Se bem que... Eu ter vindo aqui já é uma besteira das grandes, sobre a qual eu ainda nem consigo crer que esteja acontecendo. Onde eu arranjei coragem?
“Senta aí”, sugiro, tentando parecer casual.
“Tá”.
Natasha sempre foi lacônica. Reservada, quieta, sempre procurou ficar na sua e, em termos de esbanjamento, sempre optou por deixar essa parte por conta de seus dotes musicais. Vai ser (ainda mais) difícil tê-la por perto e ficar quicando entre fazer alguma coisa ou não.
“Como estão as coisas?”, pergunto.
“Estão indo”, ela diz. “Tô cantando quase todas as noites por aí. Me virando. E você?”
“Entrei recentemente numa firma de advocacia, pra ir ganhando um pouco de experiência”.
“Legal!”
“É”.
Num impulso idiota, encho o copo com a cerveja choca, levo à boca e quase me engasgo de nojo por causa da temperatura. A bebida está intragável. Seria uma ótima ocasião para Natasha rir da minha cara e eu pegar carona nisso e transformar a conversa num episódio hilariante, rendendo um papo mais descontraído. Mas ela arregala os olhos e me encara preocupada.
Expectativas! Mais frágeis do que farelo de biscoito...
“Eu esqueci que a cerveja tava quente”, me explico.
“Ah...”
“Escuta, você... tem visto alguém da galera?”
“Da galera da escola?”
“É...”
Que assunto mais imbecil. Nem um pouco indicado para abordar com a garota que você gosta logo após cuspir uma boa quantidade de cerveja na frente dela.
“Quer que eu peça uma cerveja pra gente?”, mudo o assunto antes que ela se toque de que ele e eu somos muito patéticos.
Mas aí percebo onde o olhar dela foi parar. Na minha mão esquerda.
“Você se casou?”
“Eu? Ah... É... Sim, sim, eu... eu me casei”.
“Aaaahhh”, ela faz, e eu fico em dúvida se ela achou fofo ou está disfarçando algum desapontamento. Mas para isso, ela teria de estar interessada em mim. “Sua mulher não veio com você?”
“Não, não”.
Droga! Essa aliança que eu me esqueci de tirar.
“Ivan, você é muito legal, mas não pega bem ficar conversando a sós com outra mulher num bar. Não me leva a mal, tá?”
Natasha se levanta, mas ainda insisto, fingindo não ter segundas intenções:
“Que é isso, Natasha. Somos amigos. Não tem problema a gente conversar um pouco...”
“Se outras pessoas estivessem aqui, por mim tudo bem. Mas é que não me sinto à vontade sozinha com você. Desculpa. Adorei te ver, Ivan!”
Ela me dá um beijinho no rosto e se afasta, encontrando um outro conhecido pelo caminho. Olho para a garrafa vazia de cerveja e tudo em que posso pensar é no quanto de ódio eu poderia gastar estraçalhando ela contra o chão. Porém, no meu peito, sei que o que fala mais alto não é o ódio. É a frustração. A impotência que mora em meus olhos e me encara no espelho todos os dias de manhã, me fazendo enxergar que a minha vida poderia ser outra. Poderia ser boa.
Pago a conta, vou embora do bar. Toda essa expectativa por uma noite que eu nem deveria ter vivido. Pego um táxi e sigo rumo ao meu inferno particular. De volta para os braços da mulher com quem escolhi me casar, só para acabar me arrependendo amargamente.

Eva está comendo pipoca e vendo TV com seu duvidosamente seleto trio de amigos, duas meninas e um cara, que provavelmente está tentando pegar uma delas, pois gay ele não é. Estão sentados no chão, em volta da mesa de centro. O cenho franzido de Eva ao me ver é a visão mais repetida que ela tem me oferecido nos últimos dois anos, desde que se passou o frenesi inicial do casamento. O problema é que eu esperava que esse tal frenesi fosse durar mais de três meses.
“Acabou a janta”, ela me recebe. “Como foi lá com o Macedo?”
“Foi bom, amor”, minto, nutrindo uma irritação por ela me receber dando a péssima notícia de que não tem janta. “Tô morrendo de fome”.
Eva olha para a tigela de pipoca, estende-a para mim e diz:
“Ainda tem um pouco, se quiser. Mas eu não vou cozinhar nada pra você. A academia me matou hoje, tô muito quebrada. E a galera tá aqui hoje”.
“Você tem cigarro Destruction, fera?”, pergunta o cara que está querendo pegar uma das amigas da minha mulher. “Comecei a fumar ontem”.
“E você começou por um cigarro com esse nome? Bem sensato”, respondo com sarcasmo. “Não, não tenho”.
“Não liga, Cadu, ele é abusado assim mesmo”, Eva justifica.
“Será que a gente pode voltar a falar do que a gente tava falando?”, uma das amigas cujo nome eu desconheço se intromete, impaciente. “Não é todo dia que sua prima completa sete meses de gravidez falsa, né? Enquanto ela enrola pra dizer a verdade, me ajudem a escolher o presente pro chá de bebê. Ai, maldita hora em que eu topei ajudar ela com essa história”.
“Vou lá na cozinha preparar alguma coisa”, informo, louco para fugir dessa reunião idiota. Ninguém me ouviu.
Me inclino para beijar Eva, que reage fina como uma flor:
“Cacete, Ivan! Sai da frente, seu idiota. Bem na hora que a polícia descobriu o assassino no filme. Sai daqui!”
“Não consigo encontrar cigarro Destruction em lugar algum”, queixa-se o amigo recém-chegado ao mundo dos fumantes. “Preciso azucrinar a minha mãe pra ela aprender que quando eu decido alguma coisa, eu vou em frente. Mas tem que ser com Destruction, que é menos agressivo pros pulmões. Por que eu não decidi virar hippie? É mais fácil fazer artesanato e andar com roupas velhas do que encontrar esse maldito cigarro”.
Reviro os olhos de tanta vergonha alheia, peço licença e caminho até a cozinha, após ser praticamente enxotado. Nem o Alladin, nosso cachorro, recebe esse tipo de tratamento da parte da minha esposa.
Nessa mesma noite, na cama, Eva me diz coisas maravilhosas, acariciando meu rosto e encarando meus olhos à penumbra. E eu a perdoo por ser tão mesquinha e malvada. E nos amamos com uma paixão parecida com aquela que tínhamos no início do namoro, mas que nunca mais será resgatada, claro. Será que ela tem ciência disso?
“Bom dia, amor”, eu a saúdo, saindo do banheiro após um bom banho para mais um dia de trabalho.
“Mais uma palavra e eu vou perder o sono. E se eu perder o sono, eu te mato”, declara ela, enfiando a cara o mais fundo que pode no travesseiro, morta de raiva.
E o ciclo se reinicia.


Não é que eu tenha aprendido a ser contra casamentos desde que perdi o encanto com a minha própria experiência. Mas, assim, se for pra dar um conselho, aqui vai: não se case tão jovem como eu fiz. Não se enlace com a primeira pessoa que faz você achar que ela é a pessoa certa só porque vocês dois estão vivendo como num filme de amor extasiante. Ou, então, espere no mínimo uns dois anos. Eu mal tinha 24 anos quando interpretei mal minhas intenções com Eva. Três anos mais nova que eu, ela também não devia ter muita ideia de onde estava se metendo. Nem seus pais, tampouco os meus. Casamento é tão romantizado que as pessoas esquecem de que é tão importante quanto educação ou investimentos financeiros. Não é construído apenas de beijos calorosos e planos coloridos, mas de um bocado de esforço árduo e cada detalhe precisa ser previamente analisado antes de marcar a data da cerimônia.
Mencionei meus pais e, falando neles, não foram o meu melhor exemplo de casal. Sequer tinham cheiro de referência de casamento para mim. Meu pai traiu minha mãe inúmeras vezes, e de alguma forma ele conseguia ser aceito de volta, como se fosse uma criança que aprontara uma travessura na escola e que recebeu uns tapas em casa e só. No caso do meu pai, acho que ele poderia ter levado uns tapas, só por questão de honra mesmo. O fato é que minha mãe engoliu essas puladas de cerca como se sua dignidade estivesse intacta. Pode ser uma questão de geração, quero dizer, a minha mãe foi criada num ambiente mais rígido que as jovens de hoje, então ela foi mais tolerante com a infidelidade de meu pai. Ou posso estar só pensando um monte de asneiras e estar milhas longe do verdadeiro motivo. Tudo que eu sei é que isso me aborrecia tremendamente.
O caso é que, por causa disso, tive diversos embates com meu pai. Discussões feias, acaloradas, cheias de dedos acusativos e xingamentos pondo em xeque seu caráter. Definitivamente, aquele não era um modelo de homem a se seguir. Até que eu me casei com Eva e, na primeira vez em que reencontrei Natasha numa dessas circunstâncias casuais, minha mulher e eu já andávamos nos estranhando. E bastou uma troca de sorrisos saudosos com Natasha para que eu descobrisse que havia algo de errado na escolha que eu fizera naquele altar, em 2004.
E tudo que eu havia optado por me distanciar se mostrava cada vez mais próximo: desde então eu alimentava um desejo de trair a minha mulher, disfarçada de curiosidade, sob a justificativa romântica de que eu nunca esquecera Natasha, com quem, inclusive, jamais troquei um selinho. Bom, o caso aqui é que isso me coloca numa posição bem similar a de meu pai, cuja imagem de mulherengo eu aprendi a abominar. Esse não é o tipo mais legal de volta que a vida dá.
Eva invariavelmente me humilhava, fazia chacota e brigava comigo, pelos mais diversos motivos. Certa vez, em 2011, ela chegou a tocar fogo em parte das minhas roupas por achar que eu a estava traindo com Deusimar. Levei praticamente um dia todo para provar que Deusimar era o assistente de um advogado da firma, e que o problema todo fora desencadeado por Deusimar ter um nome que serve para homens e mulheres.
Vestindo uma estranha combinação de calça moletom verde com um casaco de couro marrom, ponderei que Eva tinha muita sorte por eu estar aguentando seus abusos há sete anos. E nesse dia, durante sua choradeira implorando meu perdão, enfim tive audácia suficiente para dizer que já era, que tava tudo liquidado e que eu não tinha mais a menor condição de levar essa relação adiante.
Eva quis surtar, mas eu resisti bravamente e mantive a decisão. Eu precisava me libertar!
De todo modo, eu devia ter visto desde o princípio que não havia um futuro harmonioso naquele casamento. Afinal, “Eva e Ivan” nunca foi uma combinação eufônica e, juntos, aprendemos que não restaria mais combinação alguma.
Olhando para trás, foi bom ter me livrado de suas garras pelo engano cometido no episódio do Deusimar. Imagine se ela tivesse descoberto a respeito de outros nomes realmente significativos, como Marcela, Denise e Aline.


Eu me sentia pronto para correr até Natasha e me declarar para ela. Uma paixão alimentada há mais de uma década deve dizer muita coisa sobre uma pessoa, não?
“Essa cidade tem tanta mulher, hein”, comentou o taxista, levando-me até o local onde Natasha e eu marcamos de nos ver.
Eu não queria dar o mínimo de atenção à conversa do homem, então resolvi que ia ficar só balbuciando e concordando falsamente.
“Mas pena que cada homem só pode ter uma. Eu queria ser um sheik árabe”, prossegue ele.
“Aham...”
“Eu sou casado, sabe. E muito bem casado. Mas às vezes parece tão injusto estar com aquela patroa há tantos anos e não poder variar um pouquinho. O senhor é casado?”
“Não, não. Já fui”.
“Meu casamento tá ótimo, tá excelente, nada a reclamar. Mas de vez em quando eu fico pensando nisso. O senhor acha que infidelidade é falta de amor? Porque eu amo a minha mulher, eu juro. Ainda não provei uma tapioquinha com ovo frito melhor que a dela. E quando ela me aguenta nos meus dias de porre, eita! Mas sabe como é, né? Homem é bicho curioso e a gente é atraído pelo visual e, minha nossa senhora, como tem mulher bonita, rapaz! Dá vontade de experimentar um pouquinho de cada uma”.
“Desculpe, moço, mas eu não tô muito a fim de falar sobre isso, ok?”
“Opa, tudo bem, sem problema”.
E assim seguimos. Não me dava o menor prazer tagarelar com um homem cujos pensamentos me lembravam o que poderiam ser os pensamentos do meu pai e, algum tempo atrás, os meus. Mas eu tive meus motivos para ter agido como agi: Eva quase me destruiu emocionalmente. Se existe estresse pós-traumático para casamentos, certamente sou vítima exemplar.
Ou será que eu acabei desenvolvendo uma certa tolerância à infidelidade só pra me justificar? Tratei de ocupar a mente com outros pensamentos.
Chegamos. Paguei a corrida, quase agradeci pelo taxista ter mantido a boca fechada depois que eu pedi. Desci do táxi e Natasha já me esperava em frente ao restaurante. Nesse dia eu estava louco para saborear a massa que o lugar servia, mas nada superava o desejo de ter a companhia daquela mulher, devidamente avisada da minha condição de solteiro.
“Olá!”, ela sempre muito cordial, além de estar bem vestida e deslumbrante. Essa noite precisava ser especial.
“Boa noite, tudo bem?”, retribuí, cumprimentando-a com dois beijos nas faces.
“Fiquei meio envergonhada de entrar antes”, ela se explica. “Esse lugar parece chique demais pra mim. É aqui que você traz as suas namoradas? Se eu fosse um homem, eu traria aqui com certeza”.
Ela falou isso de um jeito claramente brincalhão, então rimos enquanto entramos no lugar. A piada foi boa.


Abreviando a história, tive a melhor noite possível com Natasha. Abri meu coração, contei tudo que eu vinha guardando desde os tempos de colégio. E tal foi a minha surpresa quando ela revelou que “me achava uma gracinha” ainda naqueles tempos. Eu fiquei todo encabulado, ainda mais porque eu era bastante desfavorecido esteticamente quando nós estudávamos juntos. Ora, pra que tantas palavras bonitas? Eu era terrivelmente feio mesmo! E o fato de ser negro complicava ainda mais a situação porque, se o racismo ainda persiste hoje, nem queira saber como era em meados dos anos 90. Resumindo: era um inferno. Constantemente eu me sentia diminuído e inferiorizado pelas pessoas ao meu redor. Meus amigos do peito eram os mesmos que, dia após dia, me achincalhavam pela cor da minha pele, achando que estavam fazendo gracinhas de camaradagem, como se nenhum dos apelidinhos me constrangesse ou machucasse. Eu só relevava porque eles compensavam essa babaquice fazendo coisas legais por mim e me ajudando quando eu precisasse. No entanto, por eu ter me acostumado com isso desde a infância, acabei me focando em outro problema: meu total desastre com as garotas. Todas só queriam ser minhas amigas. Acho que por isso fui logo casando com Eva, para não perder a oportunidade de ser amado pela vida inteira.
Nessa noite no restaurante com Natasha, descobri que eu me enganei redondamente durante o ensino médio. A própria Natasha admitiu que se eu a tivesse chamado pra sair e conversar, com certeza teríamos vivido uma história pois, segundo ela, as meninas curtiam meu jeito tímido porém carismático, inclusive ela mesma. Era meu charme, ela disse. E, também de acordo com ela, eu era engraçado e fofo, e que as mulheres adoram homens que as divertem e as cativam sendo eles mesmos, sem forçar a barra e querer pagar de macho alfa. Esses ganham a admiração antes por esses fatores do que pelos atributos físicos. Uau! Como é que eu não enxerguei nada disso e deixei passarem todas essas chances?
Nos beijamos ao som de alguma música romântica de fundo, algo como Celine Dion ou Toni Braxton. São cantoras totalmente distintas, mas a verdade é que eu não consigo me recordar. E eu a pedi em namoro também, com o coração mais disposto do mundo a esquecer que um dia eu traí uma mulher com outras três. Disposto a regenerar minha percepção de amor e compromisso.
Natasha sorriu e com os olhos iluminando a minha vida como um farol numa noite densa, ela aceitou. Mas eu estraguei tudo em menos tempo do que imaginava.


Quando se prova de certas coisas, você acredita que está no controle e todo o desenrolar da situação está sob suas rédeas. Bem, não foi isso que aconteceu depois que eu provei a experiência de trair. Descobri, inclusive, que nem sempre se trai por insatisfação no relacionamento. Depois de ficar com três mulheres diferentes (não ao mesmo tempo) próximo ao fim do meu casamento com Eva, achei que o coração sossegaria ao encontrar amor, carinho e respeito nos braços de Natasha. Todavia, eu fui sendo aos poucos arrebatado pela ideia de ser um homem atraente, misterioso, charmoso. Não, não, não. Não é que eu queira me gabar, mas desde que descobri que um determinado conjunto de atitudes conquistava a atenção e admiração das mulheres com quem eu tive casos, não resisti à tentação de testá-los com outras mulheres que eu considerava atraentes e com as quais eu poderia hipoteticamente me relacionar. A maior parte dos testes me fazia perceber que, se eu fosse mais além na maneira de me comunicar com elas, obteria vantagens, algumas bem prazerosas, se é que você me entende...
E lá fui eu, cinco meses depois de iniciar o namoro com Natasha, me meter a testar as minhas “habilidades” achando que tudo seria uma brincadeira, uma aventura psicológica divertida, um jogo de sedução inofensivo. Mal tinha noção de que, assim como uma droga perigosa, eu estava sendo dominado por essa estranha forma de arte da conquista. Exagerei na dose. Exagerei e fiz exatamente o mesmo que fiz na época do casamento: traí Natasha com três mulheres: Andrea, Natalie e Arlete.
Uma bela noite, cheio de uma coragem arranjada sabe-se lá onde, eu cheguei para Natasha, que estava se preparando para tocar e cantar em algum bar qualquer, e joguei as cartas na mesa. Confessei meu erro e disse que não estava mais aguentando guardar aquilo. Ao menos um ato nobre no meio daquele disfarce de namorado perfeito.
Natasha não era muito sentimental, pelo menos exteriormente. Conversamos numa boa, ela assumiu que saber daquilo a deixava profundamente magoada e que ela jamais esperaria tal comportamento da minha parte. Em pensamento, tive de concordar que nem eu esperaria. Era à parte de mim, como se eu fosse hospedeiro para um Ivan cruel e egoísta com sede desenfreada por estar com outras mulheres.
Os poréns mais intrigantes que eu tive coragem de admitir a ela foram os seguintes: eu nutria um carinho especial pelas garotas com quem tive casos. Não as usei como objetos e sequer as destratei após terem me proporcionado momentos de paixão e desejo. Além do mais, eu simplesmente não conseguia me arrepender. De nadinha. Eu fazia era gostar dessa prática. Eu me sentia livre, envaidecido, dono do meu universo, controlador das minhas vontades, muito embora eu tenha afirmado que essas vontades eram maiores do que eu e, portanto, incontroláveis. No fundo, eu não era coagido a fazer nada, tudo era deliberado e calculado, planejado minuciosamente. Aliás, eu só ia acumulando mais conhecimento sobre como fazer aquilo. Era como um vício, só que um vício do qual eu era amigo, com o qual me identifico e aponta para um Ivan Castro que eu creio que sempre existiu.
Natasha julgou aquilo extremamente reprovável dentro das normalidades num relacionamento a dois. Falou todas essas coisas com todo o cuidado em não parecer ofensiva. Eu tentei abraçá-la e dizer que a amava, mas ela preferiu que não. Ambos sabíamos que eu acabaria repetindo o que fiz, caso permanecêssemos namorando. Para não se machucar ainda mais, ela me pediu que nem mesmo continuássemos amigos, dizendo ela que não falaria de mim por aí nem entraria em detalhes sobre o término do nosso namoro.
Natasha me deixou e eu nunca mais soube de seu paradeiro. Meu coração ficou em pedaços. Por uma semana, talvez. Logo eu estaria à caça de novo.

  
Um tempo depois, tive a ideia de criar a AMANDA. Juntei as iniciais de todas as mulheres com quem eu traí tanto Eva quanto Natasha e resolvi que aquele seria o meu segredinho cretino. É como se eu estivesse zombando do mundo ao meu redor com um nome que revelasse muito do meu verdadeiro eu, ao mesmo tempo em que eu ajudaria homens e mulheres a conquistar seus objetos de paixão, juntando tudo que aprendi com anos de prática, pesquisa e testes.
O lado ruim é que a partir de então eu comecei a colecionar segredos, por que era o mais conveniente a se fazer e me resguardava de dores de cabeça.
No fim, por mais incrível e bizarro que pareça, hoje eu compreendo melhor o lado do meu pai e até do taxista incômodo que me levou ao restaurante na noite em que beijei Natasha pela primeira vez. Não é que trair seja algo legal. Dando um conselho sobre isso, não traia. É um crime afetivo atrelado a diversas delicadezas com as quais nem todo mundo consegue lidar, como a culpa por ter traído e o peso do remorso que isso pode te trazer. Eu não encaro minha vida amorosa múltipla como traição, apenas como uma prática diferenciada.
Sabendo o quanto dá trabalho ter de me explicar sobre isso é o que me mantém atuando em sociedade como se eu fosse só mais um homem comum, um advogado que não exerce a advocacia e dono de um café-bar. Para a esmagadora maioria das pessoas, muitas delas hipócritas fantasiadas de gente decente, sou um monstro imoral e leviano. Para mim, que é o que importa, sou um ser humano falho que apenas tem preferências peculiares e facilmente incompreendidas. Ame ou odeie, este é o verdadeiro Ivan Castro.