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7 de janeiro de 2018

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x14: A MÚSICA FAVORITA




Era noite do aniversário de Milena e Sávio tinha ido visitar a melhor amiga para dedicar um tempo a ela e jogarem conversa fora. O momento que pode ser considerado o ápice foi quando esbarraram com “As branquelas” passando em algum canal na TV paga e nem pensaram duas vezes em assistir. O filme já estava em mais da metade. Milena sabia um monte de falas de cor e Sávio ficava elogiando as sacadas da dublagem.
Lá pelas 11 e pouco da noite, já era hora da despedida. Sávio precisava dirigir para voltar para casa, mas já tinha bebido vinho branco o suficiente para causar ou sofrer um acidente.
Embora Milena tivesse insistido que ele poderia dormir por lá, ele achou melhor não, pois tinha trabalho a fazer no dia seguinte e, dormindo em casa, com certeza ia acordar com os barulhos garantidos da mãe.
“Não tem problema”, argumentou Mile. “Eu posso fazer bastante barulho pra você acordar. Eu tenho umas panelas muito boas aqui em casa. Me diz aí um barulho insuportável que te arranca da cama depressinha”.
“Você já ouviu falar em tecnobrega?”
Ambos caíram na risada. Deve-se admitir que o teor alcoólico ajudou a deixar qualquer bobagem mais risível.
“Ai, ai”, suspirou Sávio. “Até parece que você também não iria acordar bem tarde amanhã. Melhor não arriscar. Com a minha mãe não tem erro. Não importa o que aconteça, ela sempre acorda antes das 6:30 e começa a perambular pela casa reclamando. Melhor do que qualquer alarme de celular”.
“Tudo bem então”, Mile se rende. “Obrigada por ter vindo aqui no dia do meu aniversário!”
Ele a abraçou apertado, em seguida recolheu o tabuleiro do jogo Quest e suas peças componentes e enfiou tudo na caixa própria. As horas que passaram juntos foram preciosíssimas.
Despediram-se. Milena desejou que ele tivesse cuidado e Sávio, embora tivesse bebido, sentia-se bastante seguro.


Aviso de notificação no celular. Já eram 23:55 e havia uma mensagem de Anna no Whatsapp. Sávio a leu com certa preocupação, pois apesar de eles terem terminado o namoro há meses, ela de vez em quando mandava “ois”, “bom-dias”, “boas-noites” e emojis bonitinhos. Isso o incomodava um pouco, pois realmente tinha acreditado que tudo havia terminado bem, sem a menor chance de reatar. Porém, Anna era insistente. Era como se ficasse dando sinais de que ainda estava disponível pro caso de ele mudar de ideia. Por fim, ainda naquele fim de noite, ela acabou ligando para ele.
“Oi, Anna!”, ele atendeu, com cuidado para não soar mal-educado.
“Oooiii!”, ela disse, com voz festiva. “Olha, eu vou direto ao ponto: uma prima minha vai dar um jantar de noivado no fim de semana e eu tava pensando se a gente podia ir junto. Mas sem grilo, tá tudo numa boa, eu já expliquei pra ela que não estamos mais namorando e tudo mais. Seria só um encontro entre amigos, digamos assim. É que eu odeio ir desacompanhada pra esse tipo de ocasião”.
“Ah, sim...”
Além de provavelmente estar com um hálito que de longe o reprovaria no bafômetro, Sávio ainda por cima estava usando o celular enquanto dirigia. Entretanto, o que mais o chateava era não ter um raciocínio ágil o bastante para dar um fora em Anna sem magoá-la. Ou será que uma patada seria mais eficaz? Não, as coisas não precisavam ir por aí... As circunstâncias do rompimento já tinham sido muito chatas, ele reconhecia. E agora, ela vinha com esse papo de não gostar de comparecer desacompanhada a um evento. Como lidar com isso?
“Olha, Anna, não sei se vai dar... Eu... Eu posso precisar sair no sábado... Sei lá, talvez pra investigar alguém pra algum caso da empresa. É bem complicado, sabe... me comprometer com qualquer coisa e...”, justificou-se ele, transmitindo uma péssima impressão com as gaguejadas.
“Hummm... Sei...”
“Mas qualquer coisa eu te aviso”.
“Tudo bem, querido”, conformou-se ela, com sua típica elegância de não querer perseverar num assunto.
“Pois é, desculpa mesmo”.
“Relaxa. Qualquer coisa, me liga então, Beijo!”
“Outro. Tchau!”
Sávio desligou a chamada com a certeza de que é mais fácil acreditar em fadas e duendes do que na desculpa esfarrapada que dera. E o que mais lhe doía era saber que Anna era madura demais pra não ver que ele só estava lhe mantendo de escanteio. Porém, por mais egoísta que pudesse parecer, Sávio se perguntava por que ela simplesmente não parava de se iludir desse jeito e lhe deixar em paz e sem aquela sensação amarga de remorso.
Quando deu por si, um sedan lhe deu uma fechada brusca e se colocou em sua frente. Foi tudo bem rápido: três homens muito fortes, com porte de seguranças de boate, desceram do carro e marcharam de cara zangada rumo ao carro de Sávio. Um deles segurava uma barra de ferro e sem qualquer cerimônia investiu contra o vidro da frente, rachando-o com uma violência descomunal, golpeando repetidamente.
Outro brutamontes abriu a porta do carro antes de Sávio sequer ter tempo de travá-la, e arrancou-o de dentro do veículo com a mão no colarinho de sua camisa.
“Que é isso, cara? Pode levar o que quiser, leva o que quiser!”
Sávio não se recordava quando fora a última vez em que sentira tanto medo. A garganta logo secou e o calor do nervosismo foi se alastrando por todo seu corpo, sufocando-o.
O homem que o arrancara do carro o arremessara contra uma lata de lixo na calçada. Um quarto cara, que deveria ser o motorista da gangue, surgiu com um celular em punho, aparentemente filmando e fotografando toda a ação.
Sávio tentou se levantar, zonzo pelo vinho e agora ainda mais por conta do baque. O que estava acontecendo? Aquilo não estava parecendo um assalto. Parecia que ele era um alvo proposital.
Os três homens fortes caminharam em sua direção, enquanto o quarto ficava com o celular apontado para não perder nenhuma imagem, e a pancadaria começou. Muitos chutes e muitos socos, entremeados por gritos de dor e pedidos agoniados de Sávio para que parassem. Aquele pedaço da rua era extremamente deserto e, se alguém estivesse escutando tudo, preferiu não se intrometer.
Sávio apanhou tanto que apagou e, mesmo assim, a surra não cessou. E é isso que explica o fato dele não estar podendo narrar esses relatos.


Foi Sávio quem, muitos anos atrás, apresentou para Anna Munhoz aquela que viria a se tornar a música favorita dela. Uma canção dos Beatles com o conveniente nome de... “Anna”!!
“Ah, é sério?”, ele não acreditara na época. “Mas a letra nem tem a ver com você. Só é sua favorita porque tem seu nome, né?”
“É isso mesmo!”, assumira ela sem o menor problema. “Bom, mas a música é bonita e tem um embalo muito legal”.
“Mas é sua favorita de todas as músicas do mundo ou é só sua favorita dos Beatles?”
“De todas do mundo”, respondeu ela, prontamente.
Eles estavam na casa dela nesse dia, no quarto dela. Os pais de Anna estavam em casa fazendo qualquer coisa na sala e tanto ela quanto Sávio estavam plenamente cientes de que, se tentassem qualquer “gracinha” (leia-se “transar”), eles dariam um jeito de descobrir e dar um belo basta naquele namoro. Mal sabiam o Senhor e Senhora Munhoz que, apesar da forte atração que tinham um pelo outro, o casalzinho queria ir com calma. Achavam que apenas quatro meses de namoro ainda era cedo demais e, a bem da verdade, a obsessão de Sávio com coisas nerds atrapalhavam qualquer clima sexual de nascer. Volta e meia ele aparecia com músicas, jogos e séries e conseguia fazer a namorada se apaixonar perdidamente por essas novidades. De tanto que esses dois “se preservavam”, seria mais capaz a mãe de Anna chegar com a filha e lhe dar umas aulas de como se insinuar sexualmente para o namorado, só para poder enquadrar a filha no que ela considerava mais normal do que ficar vendo episódios de Dragon Ball Z incansavelmente.
Anna tinha um micro-system no quarto. Caminhou até ele, pegou uma fita cassete e colocou para tocar. A música dos Beatles já estava no ponto. Começou a se espalhar pelo ambiente, enquanto Anna, em pé, virou-se de costas para Sávio, que jazia sentado sobre a cama dela. Anna, que sempre foi talentosa para a dança, começou a se mover ao som da música, de um jeito gracioso e, de certa forma, um tanto infantil, mas com a sensualidade fácil de se ver numa garota de quinze anos.
Sávio soube ali, naquele momento, que essa seria uma das imagens mais marcantes que ele guardaria dela para sempre, não importa o que viesse a acontecer aos dois. Enquanto John, Paul, Ringo e George os conduziam naquela jornada apaixonada em forma de canção, Sávio contemplava tudo quieto, com o coração sendo mais e mais envolvido pelos encantos de sua jovem paixão. Até que, lentamente, ela se virou para ele e lhe jogou um beijinho, seguido de uma piscadela e finalizando com um sorriso doce, só para fechar os olhos e continuar se mexendo ao som de sua música favorita.


Sávio não sabia dizer o porquê, mas essa música estava tocando lá no fundo de sua mente, enquanto era trazido de volta à consciência. A memória dos Beatles cantando essa melodia tão significativa e de Anna dançando no quarto... Tudo parecia tão vívido. Até que ele abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi um teto esbranquiçado, e o mais puro silêncio ao redor. A dor veio depois, muita dor.
Quando tentou virar a cabeça pro lado, a dor foi excruciante. Então, desistiu, fazendo uma careta.
Um vulto se levantou de alguma cadeira por perto, indo em sua direção. Ainda pensando que estava tendo alucinações com o passado, Sávio não compreendeu o que Anna Munhoz estava fazendo ali.
“Nossa, você acordou! Que bom!”, ela demonstrou alívio genuíno.
“O que... O que você... Ai!”, ele balbuciou, sentindo a mandíbula arder e o hálito com gosto meio ferroso. Tipo como se tivesse experimentado bastante sangue.
“Calma, meu bem, calma. Tá tudo bem agora, viu?”
Sávio percebeu que ela estava usando jaleco e um crachá.
“Eu tô no hospital?!”
“Sim”, confirmou ela. “Mas fica calmo, você vai ficar bom, é só não fazer muito esforço, ok?”
Sávio soltou um gemido de dor. As costelas latejavam. Piscando por conta da confusão da ocasião, percebeu que um dos olhos estava mais fechado do que o outro. Como se um deles estivesse consideravelmente inchado. E realmente estava.
“O que houve?”, indagou ele, com dificuldade.
Anna olhou para ele com ternura e um pouco de preocupação.
“Você ficou desacordado por doze horas, Sávio. Encontraram você na rua completamente espancado”.
A menção da palavra “espancado” foi como um gatilho que ele precisava para se lembrar de toda a situação que sofrera na noite passada. Sua reação imediata foi rememorar em cada centímetro do corpo todo o ataque gratuito.


Quando Anna voltou quarenta minutos depois de Sávio ter acordado, as dores dele já estavam mais amenas, graças à medicação que o médico administrara. Quando ela entrou no quarto, carregava uma bandeja com um prato grande, um pequeno e um copo descartável.
“A gente tá no mesmo hospital que você trabalha?”, interessou-se ele, degustando da ironia que se configurava. Dera um jeito de dispensar Anna na noite passada, mas viera parar sob seus cuidados. A famosa justiça poética.
“Aham!”, confirmou ela, pondo a bandeja sobre uma pequena mesa ao lado da cama. “Duas pessoas te encontraram na rua, pegaram seu celular e viram que o último número na memória era o meu, então me ligaram”.
“Caramba! Sério? E por que não ligaram pra polícia?”
“Não faço ideia”, Anna deu de ombros. “Mas você tem que reconhecer que foi sorte terem ligado pra mim, né? Quero dizer, eu trabalho num hospital, sou médica e... bem, já fomos namorados”.
Sávio fez o possível para não dar uma de Denner e acabar expelindo oralmente o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça: será que Anna não tinha armado tudo para colocá-lo em suas mãos? Que tipo de maníaca ela seria a ponto de contratar homens para lhe dar uma coça tão brutal? Ele decidiu afastar o pensamento, apesar de parecer tudo muito planejado. E que história é essa de duas pessoas o encontrarem na rua e ligarem para Anna em vez de informar à polícia?
“Eu imagino o que você tá pensando”, ela não se intimidou. “Mas eu definitivamente não seria uma escrota e fazer você ser espancado até quase morrer. Eu sou melhor do que isso. É até chato se isso estiver passando pela sua cabeça, mas eu tava falando sério quando disse que só queria te ver bem. Lembra? Naquele dia em que conversamos você, Milena e eu”.
“Eu me lembro”, atestou ele.
Uma ligeira busca em suas lembranças fez Sávio perceber que Anna jamais mentira para ele. Ou melhor, na única vez em que fizera isso, ainda na adolescência, foi para poupá-lo das agruras que ela estava tendo de lidar. Portanto, concluiu ele, não havia motivo para suspeitar que ela tinha sido a responsável pelo ocorrido da noite anterior.
“E a polícia já tá sabendo que você acordou e em breve vem alguém pra conversar com você”, continuou ela. “Trouxe seu almoço”, ela apontou para a bandeja. “Vamos, vou te ajudar a se sentar pra comer. Enfermeiro!”
“Tá tudo doendo”, queixou-se Sávio. “Sinceramente, não sei como não morri. Teve uma hora que eu apaguei e não vi mais nada”.
Anna se aproximou dele, ajudada pelo enfermeiro que chamara, e os dois cuidadosamente foram auxiliando Sávio a se acomodar na cama, de forma que pudesse ter um mínimo de conforto para almoçar.
“Obrigada, Luís!”, ela agradeceu ao enfermeiro, que saiu. Em seguida, voltou-se ao ex-namorado: “E então, tem alguma ideia do porquê fizeram isso com você? Ou de quem? A polícia disse que não levaram nada, só quebraram o vidro do seu carro e te bateram. Então não foi assalto”.
“Não faço a mínima ideia”, lamentou Sávio. “No ramo que eu trabalho, daria pra acusar um monte de gente. Sei lá, algum psicopata pode não ter gostado nada de saber que sua namorada pagou pra se desapaixonar dele. Coisas assim, sabe...”
Anna abriu a embalagem de plástico com os talheres, parecendo serena. Acompanhando-a com o olhar, Sávio teve outro vislumbre daquele dia em que ela estava dançando lindamente ao som dos Beatles.
“Hum... Faz sentido”, concordou ela.
“Faz sentido e é assustador também”.
“Muito”.
“Droga!”, bufou ele. “Eu tenho que avisar lá na agência...”
“Pode deixar comigo. Assim que você almoçar, eu vou dar uma ligadinha pra lá”.
Sávio tentou movimentar o braço para pegar a colher, mas não conseguiu disfarçar a careta de dor. Vendo isso, Anna não comentou coisa alguma e apenas tomou para si a responsabilidade de alimentá-lo.
Mastigar doía. A comida estava gostosa, mas cada mordida era um sacrifício doloroso. A atividade aconteceu em silêncio. Até que, enquanto ela preparava outra colherada, Sávio resolveu tocar num assunto:
“Você se lembra da sua música favorita?”
“O quê?”
“Sua música favorita”.
Ela riu, tentando entender por quê ele de repente resolveu falar nisso.
“Claro que eu lembro. É a ‘Anna’, dos Beatles. Imagina se eu ia esquecer!”
“Eu não sei porquê, mas... acho que eu me lembrei dela durante meu pequeno coma”.
“Sério?”, ela continuou rindo. “Falando em coma...”, ela se interrompeu de propósito, fazendo sinal pra ele abrir a boca pra engolir a comida.
Enquanto ele mastigava, Anna teve uma ideia.
“Eu tenho essa música no meu celular, sabia? Quer escutar?”
“Nossa!”, pela primeira vez ele sorriu desde que acordara do coma, inundado de nostalgia. “Eu quero sim. Coloca aí!”
Ela deixou o prato quase vazio sobre a mesa e foi até sua bolsa, de onde sacou o celular. Parecia bastante entusiasmada, enquanto se ocupava mexendo no aparelho em busca da música. E, então, deu o play.
Foi só a música começar que Sávio se sentiu transportado para 2001, para aquele quarto de menina adolescente. Ele foi até capaz de ver a penteadeira com perfumes e itens de maquiagem, e diversos pôsteres decorando as paredes, de astros pop a cartazes de filmes. E ela dançando. Ah, sim, uma imagem tão clara como se fosse hoje... Como se fossem aquele casal nos primórdios do romance, desfrutando de uma intimidade velada, que não viria a se consumir, mas que dava um quentinho no coração― e em outras partes também, se é que estou sendo claro.
No entanto, estava realmente acontecendo, não era só uma recordação distante projetada por uma cabeça pulsando de dor. Não era 2001. Era ali, naquele quarto de hospital. Sávio todo avariado e confuso por não ter a menor pista de quem o quisera naquele estado, e Anna dançando com a leveza que sempre lhe foi peculiar. O ruivo de seus cabelos, ainda que já meio desbotados, capturando a ternura no olhar de Sávio. Anna Munhoz, aquela que carregava em si a perturbadora dicotomia de ser apaixonante e desapaixonante.
Sávio soube ali que, provavelmente, ela nunca deixaria de amá-lo, mesmo que encontrasse um cara sensacional futuramente. E, no meio de todo aquele sofrimento físico que estava passando, Sávio compreendeu que o que mais lhe doía era saber que não tinha capacidade para retribuir tanto amor. No auge de suas considerações, pensou: “Por que aqueles filhos da mãe não me mataram logo?”


Aproveitando a distância do quarto do ex-namorado, Anna ligou para ANNA (o que lhe fez querer rir enquanto discava, pelo quanto isso parecia deliciosamente insano), explicou rapidamente o que tinha acontecido, deixando Madonna apreensiva. Segundo a secretária, Denner não estava na agência, saíra com um casal bem-vestido e misterioso.
Após essa ligação, Anna estava nervosa. Mas precisava tirar essa história a limpo, e sua suspeita era muito forte. Então, discou para outro número.
“Você tá em casa? Preciso falar com você, mas tem de ser pessoalmente”, disse ela, tentando soar o mais casual possível, mas mantendo um certo ar de urgência para que a pessoa a levasse a sério.
“Não tô em casa”, disse a pessoa do outro lado da linha, bastante relaxada. “O que aconteceu?”
“Desculpa, mas tem de ser pessoalmente”.
Silêncio. A pessoa provavelmente estava pensando numa alternativa. Uns 15 segundos depois, a pessoa respondeu:
“Eu tô passando uns dias num hotel, vou te passar um endereço. Você se incomoda se não estivermos sozinhos?”
“Humm... É que eu preferia ter uma conversa particular”.
“Ah... Acho que não vai ser possível. Pode até rolar, mas não posso te garantir nada”.
“Então tudo bem, pode ter gente por perto, não tem problema”.
“Uau! Você quer mesmo falar comigo, hein!”
“Sim. Preciso!”
A pessoa passou o endereço e Anna memorizou meticulosamente. Hoje mesmo ia tentar entender o que estava acontecendo.


Era pouco mais de cinco da tarde quando Anna desceu do carro e averiguou o celular, preparando-o para lhe servir de ajuda. O hotel Glory era um edifício opulento de fachada muito chique e repleto de janelas de vidro muito compridas nos apartamentos. Anna presumiu que o prédio tivesse mais de 20 andares. Logo na entrada, havia um jardim com um gramado bonito e bem cuidado na frente, pelo qual ela atravessou ao longo de uma passarela de concreto que se estendia por quase seis metros do portão até a entrada do saguão.
Anunciou-se na recepção, e o atendente só precisou confirmar com o hóspede que a estava aguardando. Liberada para subir, Anna tentou manter a calma. Ela não sabia bem o porquê, mas sua desconfiança beirava o desespero.
O quarto era no 14º andar. O elevador se abriu, ela foi marchando tranquilamente até o quarto 1404. Anna tomou o último fôlego, ensaiando mentalmente como levaria a conversa. Por que fora até ali? Valia mesmo a pena? Dane-se, já estava ali mesmo...
Para sua não tão grande surpresa, quem lhe recebeu foi uma das namoradas de Ivan. Era uma morena de cabelos ondulados e olhos pequenos, de nome Cyntia.
“Oi, tudo bem?”, cumprimentou Anna. “O Ivan está?”
“Só um momentinho”, Cyntia virou-se para uma direção que Anna não podia visualizar muito bem da porta. Pela cara não muito contente de Cyntia, sua visita estava atrapalhando algo.
Ivan aproximou-se delas, vestindo apenas um robe de seda verde-escuro com detalhes dourados e com uma taça de champanhe numa das mãos.
“Boa tarde, Anna!”, cumprimentou ele, estendendo a mão desocupada ao redor, indicando que ela poderia entrar.
Anna começava a se arrepender, graças ao olhar de desprezo de Cyntia, mas foi entrando. Decidiu que não ia se preocupar com esses detalhes.
“Pode ficar à vontade, sente-se aí no sofá. Quer beber alguma coisa? Esse champanhe é delicioso!”, disse Ivan.
“Não quero nada, obrigada. Eu ficaria mais à vontade se você estivesse vestido com... roupas”, confessou Anna.
Ivan riu, assentindo.
“É mesmo! Mas é que resolvi me dar uns dias de folga do trabalho pra ficar com as meninas. Por isso estou me dando ao luxo de ficar no Glory”.
Anna observou ao redor, detendo o olhar em Cyntia, que estava sentada à bancada do bar do apartamento, olhando qualquer coisa em seu smartphone.
“Parece que você não poupou mesmo, hein!”, admirou-se Anna, que preferiu ficar caminhando pelo cômodo. Estava nervosa demais para se sentar.
“Quem tá aí, amor?”, surgiu Valéria, vindo do exterior do apartamento. Estava com os cabelos molhados e uma toalha pendurada no ombro, então Anna deduziu que ela tivesse acabado de aproveitar a piscina do hotel.
Anna, simpática, fez um aceno com os dedos. Valéria apenas balançou a cabeça lentamente, devolvendo a saudação, porém deixando bem claro que sua presença não era bem-vinda.
“Falta a Ju”, acrescentou Ivan. “Ela deu uma saidinha, mas deve estar voltando. Mas enfim, Srta. Anna Munhoz, o que lhe traz aqui?”
“Elas precisam mesmo estar aqui?”
“Desculpa, Anna, mas eu tenho tido pouco tempo pra elas, então cada minuto é valioso. Na verdade, você que tá com sorte por elas terem concordado em ceder um pouco desse tempo pra você”.
Anna resistiu à tentação de revirar os olhos, passando por cima da enorme sensação de nojo que sentia. Outrora, ela e Ivan eram muito amigos. Mas ela conseguia encarar com surpresa o tanto que ele era sujo, então já não fazia tanta questão dessa amizade.
“Muito bem”, ela respirou fundo. “Em nome da amizade que nós sempre tivemos, não mente pra mim, Ivan. Foi você quem mandou espancar o Sávio?”
Se foi fingimento ou não, ninguém sabe, mas ele tossiu ao escutar isso. Provavelmente engasgando-se com o champanhe, e prontamente acudido por Valéria.
“Que é isso, garota? Quem você pensa que é pra vir aqui e falar isso pro meu namorado? Tá maluca?”, doeu-se Valéria, deixando a toalha cair no chão.
Mas Ivan ergueu a mão, sinalizando que estava tudo bem e que ele tinha tudo sob controle. Cyntia continuou mexendo em seu celular, mas agora prestava mais atenção à conversa na sala do apartamento, que, a propósito, era bastante espaçosa.
“Anna!”, exclamou Ivan, surpreso (ou fingindo surpresa, quem sabe). “Como é que você pode me acusar de uma coisa dessas? Espancaram o Sávio? Meu Deus, quando foi isso? Como ele está?”
“Eu não tô te acusando, Ivan”, defendeu-se Anna. “Eu estou perguntando se foi você. Tanto que eu pedi pra você me dizer se fez isso, em nome da nossa amizade”.
“Negão, é sério que essa mulher tá dizendo que é sua amiga?”, Valéria se meteu novamente; sua ira em contínuo crescimento.
“Valéria, por favor!”, Ivan pediu para ela se calar, todo gentil. Então, voltou a atenção para Anna: “Olha, eu tô realmente confuso aqui. Como é que você chega e me pergunta um absurdo desses? Anna, sinceramente, se você diz que nós somos amigos, acho que tem alguma coisa errada nessa amizade aí”.
Mas Anna não se deixava convencer.
“Por que eu faria isso?”
“Porque ele ajudou a Milena a expor você. Ele descobriu sobre o seu harém particular e contou tudo pra Milena, que depois reuniu todas as suas namoradas pra acabar com a sua festinha. Conhecendo você, eu sei que ficaria muito puto. Poderia até não demonstrar, mas é do seu feitio preparar uma vingancinha em silêncio”.
Valéria arregalou os olhos e abriu a boca em estarrecimento.
“Que audácia!”, esbravejou.
Cyntia continuava acompanhando tudo calada, mas dessa vez sem se distrair com o telefone.
“Eu poderia chamar a polícia agora, Anna”, insinuou Ivan, cruzando as pernas e bebendo de seu champanhe. “Poderia te acusar de calúnia e difamação, já que você se deu ao trabalho de vir até aqui e atrapalhar meu momento com as minhas namoradas, e não tem prova nenhuma do que tá falando. Mas, como você mesma disse, em nome da nossa amizade, vou deixar você ir embora numa boa”.
“Negão!?”, Valéria quis protestar, mas foi censurada pelo olhar do namorado.
“Ele foi quase morto, Ivan”, persistiu Anna. “Bateram tanto nele, praticamente quebraram as pernas e as costelas dele. Foi muito cruel. Olha, se eu descobrir que você teve algum envolvimento nisso, eu sou capaz de fazer uma loucura”.
“Ivan, se você não chamar a polícia, eu vou”, ameaçou Valéria, apanhando seu celular numa cômoda por perto. “Essa mulherzinha aí passou dos limites. Além de te acusar de mandar bater em alguém, fica fazendo ameaça. Ah, mas eu não posso deixar isso barato”.
Anna viu em Valéria uma fúria se desenhando como nunca viu em ninguém. Conhecia a péssima fama dela de psicótica, então resolveu adotar uma postura diferente.
“Tudo bem, desculpa. Não precisa ligar pra ninguém”, ela tentou anuviar a situação, não podia deixar que tudo se arruinasse agora. “Mas, por favor, Ivan, entende o meu lado. Eu tô desesperada”.
Valéria acatou, mas ficou com o celular em mãos.
“Por quê?”, Ivan perguntou para Anna. “Esse cara não tá nem aí pra você, Anna. Nós já tentamos, não foi? Eu fiz a minha parte e consegui que você reconquistasse ele, mas você perdeu o sujeito. Poxa, será que vale a pena ficar se importando tanto assim com uma pessoa que não quer saber de você?”
Anna ajeitou a bolsa no ombro com cautela, onde seu celular estava gravando toda a conversa. Sua esperança era que arrancasse algo que confirmasse que Ivan era o culpado de tudo. Precisava atiçá-lo de alguma maneira, mas não contava com um desagradável revés chamado Valéria.
“Quer saber qual é o problema, Anna?”, instigou Ivan, enchendo a taça com mais champanhe.
Ela ficou esperando ele continuar.
“Você é o problema!”, ele afirmou, categórico e afiado, o que pareceu agradar muito Valéria, que deixou escapar um sorrisinho cínico.
Anna sentiu o impacto, mas não quis deixar transparecer.
“Você já era, Anna”, prosseguiu Ivan, sua voz num tom mais grave e rancoroso. “Em vez de você sair de cena decentemente, fica aí dando uma de boa-moça defensora dos pobres idiotas espancados em vias escuras e sem movimento tarde da noite”.
“Eu não disse onde e nem quando ele foi espancado”, retrucou ela, sentindo crescer em seu peito o ódio pela conclusão dos fatos. Sim, só podia ter sido Ivan o culpado. Agora não restava mais dúvida. Ele se entregara. Mas algo lhe dizia que isso não foi uma falha, ele o fizera por estar cansado de negar, talvez até tivesse apenas brincado com a cara dela esse tempo todo ao bancar o inocente.
“Se fui eu ou não, Anna, não era pra fazer diferença alguma na sua vida. Você deveria achar merecido que aquele enxerido tenha levado uma boa surra, isso sim. Afinal, ele te usou como bem quis e te largou assim que voltou às boas com a amiguinha dele. Você achando que era a estrela principal do show, quando sempre foi só a coadjuvante. Você nunca passou de uma mera coadjuvante, Anninha!”
“Foi você”, sussurrou ela, porém audível o suficiente para que Ivan escutasse e ficasse registrado na gravação do celular.
“Fui eu sim!”, confirmou Ivan, saboreando cada palavra.
Nem Valéria nem Cyntia pareceram se abalar. A primeira não via problema algum nisso; a segunda estava começando a ficar com medo, pois era pra estar curtindo um momento com o homem que ama, mas esse homem a estava deixando amedrontada.
“Sabe, Anna”, Ivan passou a usar um tom mais zombeteiro, “cada bombadão que eu paguei pra dar porrada no Sávio pediu uma merrequinha de nada pra fazer o serviço. Pra você ver como é barato quebrar a cara daquele intrometido babaca. E sabe o que mais? Eu tenho o vídeo mostrando tudinho. Tá a fim de ver?”
Anna não conseguiu mais controlar as lágrimas. Já estava querendo chorar faz tempo. Ivan atingira seu âmago. Para disfarçar, ela começou a se afastar e andar até a janela comprida de vidro, espiando o mundo lá fora e deixando-se tocar pelos fracos raios de sol que incidiam sobre a vidraça. Uma coisa era suspeitar que ele tivesse sido a mente maligna por trás de tudo; outra, muito diferente e muito mais revoltante, era lidar com a confirmação disso.
“Eu pensei que você fosse mais forte e mais inteligente, Anna”, Ivan continuou provocando.
De repente, uma chamada no celular de Anna fez ativar sua música favorita, a dos Beatles. Ela era o toque de seu telefone. A música tocava bem baixinha, só Anna podia escutá-la. Atordoada, Anna tentou enfiar a mão na bolsa para recusar a chamada, com receio de que isso atrapalhasse o registro em áudio que vinha fazendo.
“A vadia tá gravando a conversa”, Valéria suspeitou e cochichou para si mesma, atingindo o auge de sua impaciência e indignação com a presença de Anna, e rumou em passos largos até ela.
Ivan e Cyntia mal tiveram tempo de processar o que Valéria dissera.
Anna não reconheceu o número que estava ligando para ela, e quando finalmente conseguiu recusar a chamada e fazer cessar a música dos Beatles, Valéria já estava a centímetros dela, fuzilando-a com um olhar diabólico e com as duas mãos prontas para empurrá-la contra a janela.
“Valéria!”, gritou Cyntia, em vão.
Mal tendo tempo para se desviar, a última coisa que Anna sentiu foram as mãos violentas de Valéria, que empregou toda a força do próprio corpo contra ela. Os olhos endiabrados da namorada mais perigosa de Ivan também foram a última imagem que Anna registrou, porque seu raciocínio se desligou assim que percebeu que seu corpo atravessava a vidraça prédio afora e despencava, rasgando o ar suave do fim de tarde, atirado do 14º andar, indo encontrar a morte inevitável sobre o gramado bem-cuidado do hotel.

Enquanto isso, Ivan e Valéria partiam em fuga do apartamento 1404, deixando para trás uma Cyntia aos berros e completamente tomada pelo pânico. 

31 de dezembro de 2017

17 MICRO-RESENHAS PARA OS MEUS 17 LIVROS FAVORITOS DE 2017



Olá, galera, tudo bem? Como costumo usar este blog apenas para postar meus textos, resolvi inovar e fazer pela primeira vez a minha lista de leituras favoritas do ano. E pra chegar logo com o pé na porta, nada como elencar as 17 leituras que de alguma forma mais me tocaram em 2017. Por conta de "Desapaixonante", de 2015 pra cá venho me focando mais em leituras de ficção, uma maneira que encontrei para aprimorar a minha escrita, tanto como um treinamento para me ajudar a absorver o melhor dos recursos da escrita de ficção como para descartar elementos que eu não acredite que sejam tão interessantes (embora muitos deles estejam presentes em best-sellers).
E pra deixar o clichê de lista de favoritos mais bonitudo, os livros estão em ordem do "menos favorito" para o "mais favorito", e cada um vai trazer o que eu brinco chamando de "micro-resenha", só pra dar um gostinho do que dá pra esperar de cada leitura. Vamos lá?


17. 101 Canções que tocaram o Brasil (Nelson Motta)



Curiosidades interessantíssimas sobre várias das músicas mais famosas e populares da MPB, como "Garota de Ipanema", "Admirável gado novo" e "Meu bem querer". Até agora tô pasmo por saber que Roberto Carlos escreveu "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" pro Caetano Veloso!!!


16. A guerra que salvou a minha vida (Kimberly Brubaker Bradley)




Ada tinha complexo com seu pé torto. Mas o problema maior de Ada, sem dúvida, é a megera da mãe.


15. O menino no alto da montanha (John Boyne) 




Primeiro livro que li do John Boyne. Só pra confirmar que a influência de Hitler na vida das pessoas só causou desgraça. 



14. Mary Poppins (P. L. Travers)




Livro que deu origem a um dos meus filmes favoritos (o que justifica sua presença neste post). De Mary Poppins original ranzinza, tô fora. Pego meu musical da Disney e vou embora!



13. Mundos Paralelos (Vários autores)




Distopias, ficção científica, promessas de futuro assustador... Muito orgulho de ver autores nacionais oriundos do Wattpad ganhando notoriedade numa coletânea que, infelizmente, passou batido do grande público. Uma pena. 



12. O casal que mora ao lado (Shari Lapena)




O melhor episódio de Casos de família que ainda não fizeram...



11. A grande ilusão (Harlan Coben)




Não importa o quanto você fique atento, Harlan Coben vai fazer o truque dele e te enganar bonito...



10. Só os animais salvam (Ceridwen Dovey)




A alma dos animais possui uma riqueza poética de dar inveja (e você vai passar a imaginar o que seu bicho de estimação anda pensando da vida...)



9. Diário de uma escrava (Rô Mierling)




Salada de sensações: raiva, tristeza, revolta, tensão, mais raiva, mais revolta, mais tensão, um pouco mais de raiva com mais uma pitada de revolta e cobertura de tensão e...



8. Que falta você me faz (Harlan Coben)




Alucinante, eletrizante, viciante... Mas o soco no estômago fica pras três últimas páginas


7. Ed e Lorraine Warren- Demonologistas (Gerald Brittle)


Depois de ler este livro, você vai ficar desconfiado até do vento fazendo barulho na sua casa


6. Os 12 signos de Valentina (Ray Tavares)


Eu nunca pensei que fosse dar boas risadas com astrologia. A comédia nacional ganhou um presentão!!


5. Bom dia, Verônica (Andrea Killmore)


A violência contra a mulher levada a níveis bizarros e revoltantes, num livro que você não quer largar


4. Serial Killers- Anatomia do mal (Harold Schechter)


Livro completíssimo sobre o tema, mas precisa de muito estômago pra acompanhar


3. Jantar Secreto (Raphael Montes)



Quando te oferecerem carne de gaivota, recuse educadamente e... CORRA!!!


2. Matéria Escura (Blake Crouch)


Esse livro vai ligar todos os "e ses..." da sua vida


1. Por trás de seus olhos (Sarah Pinborough)


Ninguém tá preparado pro impacto que esse livro pode causar na cabeça de uma pessoa. E isso é SENSACIONAL!!



E então? O que achou da lista? Deixe sua opinião nos comentários e feliz 2018!!
8)

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x13: NICK, NICKA, LUKE, LUKA



(Do diário de Milena Kerber, 11 de Outubro de 2016, registrado às 10:34)


Bom dia, Fabi!
Como vai?
E finalmente os 30 anos chegaram, né? Ontem foi a data que eu sempre me peguei imaginando por um tempão como seria. Mas foi tão diferente do que eu esperava... Todas as últimas circunstâncias em que eu me meti acabaram estragando as expectativas. Acabou que, apesar do Sávio ter vindo me visitar e de eu ter falado com meu pai e as gêmeas no Skype, foi apenas mais um dia qualquer. Vale lembrar que ganhei um presentinho bem peculiar da Rita Lina, coisa que eu definitivamente não tava esperando. Ela agora tá atacando de tatuadora num estúdio de um amigo dela e me ofereceu uma tatuagem grátis. Sem medo do perigo, aceitei, mas com a condição de que o tal amigo fosse o responsável por tudo, já que ele tinha mais cara de manjar dos paranauês do que ela... Enfim, saí de lá com a parte interna do braço direito com o desenho de uma garota segurando um livro de onde folhas voavam e eram levadas pelo vento. Toda trabalhada nos significados profundos, uma coisa bem cabeça e poética mesmo, algo que eu achei que fizesse sentido na minha vida atualmente... Confesso que depois fiquei pensando que uma tatoo da Úrsula teria sido uma boa pedida. Ou da Mafalda, que eu amo demais. Aproveitei que tava na rua e mexi no cabelo também... Pequenos presentes que a gente se dá quando tá na vibe de chutar o balde.
Sei que soa muito melancólico e afundado no drama (e é! É melancólico e dramático pra cacete!), mas aqui é o único lugar onde eu posso ser totalmente aberta e me sentir abrigada. É que tem momentos na vida que, mesmo você recebendo carinho das pessoas e sabendo que tem gente que te ama, você simplesmente se sente pra baixo e até mesmo dispensável. Mas o pior de tudo é quando você sabe que tudo isso vem depois de você sair de um relacionamento tóxico. Existe vida pós-desapaixonamento? Bom, o que eu sei é que existe esperança, mas até pra alimentar esperança a gente acaba experimentando bastante dor...


(Milena)

A campainha toca. Interrompo os relatos no diário, fecho-o e vou verificar quem é. Só agora me dou conta da ressaca, a cabeça molenga e pesada. Ainda no clima da chutação de balde, ontem eu bebi quase uma garrafa inteira de vinho branco sozinha, assistindo uma seleção de vídeos aleatórios na internet. Só me dei conta de que eu tava indo longe demais quando, quase dormindo em frente ao computador, percebi que tava rodando um vídeo de um canal que conta as “tretas do mundo dos youtubers”, falando de gente que eu sequer conheço e continuo sem a menor vontade de conhecer. Essa foi a gota d´água que eu precisava pra decidir que o melhor a fazer era ir dormir pra aproveitar melhor meu tempo.
“Bom dia! Milena Maia Kerber, por favor?”
É o carteiro, carregando um pacote.
Assino e recebo a encomenda. Sei o que é. São uns livros que comprei na internet enquanto tava de bobeira dias atrás. Uns clássicos da Jane Austen, um livro de receitas de sobremesas (me deu uma doida e eu resolvi que ia me permitir aprender pelo menos a fazer um pudim até o fim do ano) e uma porção de livros para colorir (ninguém é perfeito, ué, e quem sabe essa não seja uma nova e maravilhosa forma de terapia pra desestressar?).
Deixo os livros sobre a estante da sala, conecto um pendrive à TV e escolho uma pasta do Nando Reis pra tocar. O carteiro quebrou um pouco o clima de confissões no diário, então vou continuar a “conversar” com Fabi mais tarde. Passo pela cozinha pra pegar um copo d´água, olho de relance pra louça suja acumulada de uma semana e me encho de coragem para lavá-la. Só que mais tarde. Lidar com a preguiça é como travar uma batalha contra uma pessoa com a qual você nem mesmo considera uma inimiga.
Enquanto Nando vai tornando o ambiente mais aprazível com “All star”, a campainha toca de novo. Que estranho, para uma casa que não costuma receber muitos visitantes. Deus, me perdoa por eu estar pensando numa boa desculpa pra dar pro caso de ser minha vizinha tagarela que vende Jequiti. Seria muito constrangedor dispensá-la pela décima sexta vez esse mês.
Mas eis que a porta se abre e, por meio segundo, tenho a clara certeza de que lidar com a vizinha seria fichinha.
“Oi, Milena!”
“Ju?!”
“Tudo bem? Será que a gente pode conversar?”


Além de recebê-la em minha casa depois daquele papelão imperdoável de se juntar ao time do Ivan, Juliana ainda aceitou quando eu ofereci café. Será que ela não aprendeu a recusar as coisas que são oferecidas por educação, principalmente quando sabe que as coisas entre nós estão péssimas? Claro que facilitaria bastante se o café já estivesse pronto, mas desde que acordei eu nem tinha me dado ao trabalho de me atarefar com isso. Mais louça pra lavar...
“Seu cabelo ficou legal de verde”, ela elogia minhas mechas novas.
“Valeu”, balbucio, sem disfarçar minha cara amarrada, colocando água na cafeteira.
“Olha, eu sei que você deve estar com raiva de mim”.
“E tô mesmo”.
“Nossa!”
“Que foi? Ah, você me conhece, Juliana!”
“É, é verdade, eu sei... Só que isso ainda me surpreende, sei lá”.
“Não mais do que você me surpreendeu naquele dia no sítio dos meus avós”.
Essa cravou tão fundo que ela prefere não responder nada, pois sabe que é uma grande verdade. Como eu poderia imaginar que, entre todas as mulheres do mundo com quem o Ivan poderia me trair, haveria uma prima de 1º grau? E, pior, que ela também era uma traidora e o Ivan, seu amante. História absurda demais, até sinto a ressaca crescer.
“Sobre o que você quer conversar?”
“Sobre as minhas escolhas erradas”.
“Huuummm, é mesmo, é?”
“Por favor, não debocha. Antes tarde do que nunca, você não acha?”
“É. Concordo. Mas o que foi que deu em você pra perceber que fez escolhas erradas?”
“Desde que eu traí meu antigo namorado com o Ivan, eu percebi que algo havia mudado em mim”, diz ela, deixando evidenciar certo remorso. “E depois de ter decidido que eu queria continuar com o Ivan, mesmo depois de você ter exposto ele daquele jeito, é como se eu não fosse mais eu, entende? Sei lá. Mas mesmo assim, alguma coisa dentro de mim me dizia que eu tava irreconhecível, e fazendo coisas que antes eu jamais faria. Imagina só, até me submeti a dividir um cara com outras duas mulheres”.
“Odeio concordar com aquele traste do Ivan, mas isso é mais comum do que parece”.
“Pode até ser, mas não pra mim”, contraria ela. “Eu descobri que nunca vou abrir mão de algumas coisas tradicionais, sabe, embora eu goste de ser descolada e à frente do meu tempo. Dividir homem ainda não é a minha praia. E também tem outra questão.”
“Sim, aquele seu canal no Youtube. Se quiser excluir, te dou todo o apoio, você só tava perdendo seu tempo mesmo”.
“Peraí, o quê??”, ela abre a boca como que profundamente ofendida. “Claro que não!! Meu canal é minha vida. Aliás, tô malzona porque não posto vídeo novo há três semanas. E tudo por causa desse arrependimento que tá me matando. Meus seguidores já me mandaram uma porção de mensagens preocupados”.
Eu sempre pecando por falar demais, mas não me arrependo de ter dado o recado.
“Desculpa, Ju, eu bebi muito ontem e amanheci com muita ressaca. Fora que eu fiquei um pouco traumatizada com esse negócio de Youtube. Então não leva em consideração tudo que eu disser, tá? Mas, deixa pra lá, qual é a outra questão?”
“É a Valéria. Ela é extremamente possessiva. Finge que não tem ciúmes de mim e da Cyntia, mas vez ou outra fica tentando jogar o Ivan contra a gente”.
“Quem te ouve falar com essa naturalidade, até esquece por um momento que vocês estão num relacionamento de poliamor, onde na verdade só o safado do Ivan que tá se dando bem. Credo!”, me sinto enojada. “Como assim, vocês vivem juntos, os quatro? Me explica isso direito”.
“Não exatamente. Mas muitas vezes ele sai com duas de nós e tal”.
“Que nojo! Nem quero imaginar esse tipo de situação ridícula”.
“Pois é, eu também acho ridículo, mas eu pensei que a solução ideal seria vir aqui e falar com você, pra você me ajudar. Mas você acabou de dizer pra não levar em consideração o que você disser”.
Desligo a cafeteira, pego umas xícaras, sirvo o café e coloco uma das xícaras diante dela.
“E que ajuda é essa que você tá querendo?”
“Eu quero me desapaixonar do Ivan”.
“Como assim? Mas você já não tá desapaixonada? O que é que tá faltando?”
“Se eu soubesse, eu não teria vindo te procurar”.
“Nossa!”
“Essa grosseria deve ser de família, desculpa”.
“Tudo bem”, tomo um gole do café. “Bom, eu só tô surpresa por você ainda não ter se desapaixonado por ele pelo simples fato de que você, minha querida prima, está num relacionamento abusivo, com aquele tipo de homem mais conhecido como ‘macho escroto’. Isso deveria ser motivo suficiente. Mas você ainda tá encantada por ele. Um homem que não mede esforços pra usar você e as outras duas que foram levadas pela lábia dele”.
“Você sabe que essas coisas de paixão são complicadas, né, Milena?”
“Eu sei, Juliana, eu sei. Mas você foi criada numa boa família, eu sei que te ensinaram a ter bom senso com certas coisas. E sair desse relacionamento coletivo e abusivo seria o mínimo de bom senso que você poderia ter, né?”
“Eu sei...”
A cara dela de menina triste me deixa com pena. E até me sinto disposta a deixar pra trás a mágoa de ter sido apunhalada por alguém do meu próprio sangue.
“Olha, eu posso te ajudar, mas não como você tá pensando”, falo com um resquício de sorriso.
“Não entendi”.
“Bom, é que eu não sou mais agente do desapaixonamento desde ano passado, e as minhas habilidades pra isso estão meio capengas, sem falar que nós temos um parentesco, então não é legal quando o envolvimento é muito pessoal, mas eu tenho um amigo que pode dar uma força”.
“Você acha que ele toparia?”
“Sim”, deixo agora um sorriso maior aparecer. “Porque foi ele quem me ajudou a me desapaixonar do Ivan”.


(Denner)


Concentrado digitando um relatório sobre um caso recém-encerrado em minha sala na ANNA, quando Madonna liga da recepção.
“É o Hektor Casanova, seu Denner! Posso passar a ligação?”
“Sim, sim, Madonna”.
Estou surpreso e bastante empolgado, porque depois da conclusão do caso do meu escritor favorito, jamais imaginei que tão cedo voltaríamos a nos falar. Espero que ele não tenha se apaixonado por mais um personagem, porque só de pensar em encontrar os anões no mundo dos sonhos de novo me deixa arrepiado.
“Denner!”, exclama ele, com entusiasmo.
“Alô, Hektor? Que surpresa! Como é que vai?”
“Eu vou muito bem, meu amigo. E com ótimas notícias pra te dar!”
“Certo... Pode falar!”
“Acabei de terminar o volume nove de Detetives da Noite. Ou seja, a série está concluída. Acabou! Pra sempre! Não é uma maravilha?”
Bom, tendo em vista que eu sou um tremendo fã da história, não é uma maravilha pra mim. Mas olhando pela sua perspectiva, Hektor, lidando com esse universo da história há tantos anos, você merece um descanso.
“Alôôô!! Denner!! Tá aí?”
“Ué, eu não respondi?”
“Só se foi em pensamento”, ri ele.
Nossa, é cômico, mas foi isso mesmo que aconteceu. Eu pensei na resposta e achei que tivesse verbalizado, o oposto do que eu tô acostumado.
“Ah, tá, me desculpa. Bom, eu sou fã, então por mim a história podia durar pra sempre, mas você deve estar precisando de um descanso depois de tantos anos se dedicando aos Detetives da Noite, né?”
“Sim, sim, exatamente. Tem razão. Olha, mas a melhor notícia não é essa, Denner. Meu agente leu os seus textos e simplesmente adorou. Ele quer te agenciar”.
“O quê?”
“Ele tá tão interessado nos seus contos que tá querendo te colocar no começo da fila dos originais pra apresentar pras editoras. E aí? Boa notícia ou não é? Segundo ele, você tem um potencial enorme! E quer saber do que mais? Eu li alguns dos textos e concordo com ele”.
“Caramba, isso... Uau! Isso é uma notícia ótima, Hektor”.
“Se tudo der certo, até o início de 2017 você vai ter um contrato lindo com uma editora boa, meu amigo”.
Por mais que eu seja um escritor, me faltam palavras.
“Poxa, Hektor, muito obrigado. Sério, muito obrigado mesmo”.
“Que nada! Eu é que vou ser pra sempre grato a você. Preciso desligar, ok? O agente vai entrar em contato em breve. Tchau!”
“Tchau!”


Um dia, eu fui um garoto que sonhava e nem se preocupava se iria realizar meus sonhos. Na verdade, eu mais pendia pro lado que acreditava que os sonhos não iriam se realizar. Eu já desejei diversas coisas, as quais quase todas nunca alcancei. Eu quis ter um Gugu equilibrista, e um tio me iludiu dizendo que ia me dar, mas acabei ficando com sua coleção incompleta de cartas de baralho; Eu implorei pra fazer curso de inglês, mas meu pai me colocou pra treinar capoeira no centro comunitário do bairro. Até hoje eu sinto inveja de quem consegue manter uma comunicação fluente em inglês, e mesmo eu tentando compensar dizendo que, ao contrário de uma parcela gigantesca de pessoas, pelo menos eu sei alguns movimentos de capoeira, caio em mim e vejo que esse tipo de conhecimento nunca me serviu de nada. Até o meu antigo berimbau já nem existe mais, porque o Lucas uma vez o levou para uma competição na escola dele sobre “invenções inúteis da humanidade” e ganhou o primeiro lugar, o que envolvia se livrar do objeto no fim da competição. Quando descobri o que ele tinha feito, fingi que tava morrendo de ódio, tudo para disfarçar o quanto, na realidade, eu me sentia grato.
Eu já quis até mesmo ter catapora, numa época em que metade da minha turma na 6ª série pegou, e quando todo mundo se curou e retornou pra escola, eu era um dos únicos a não ter assunto pra conversar com a galera. E era uma época em que eu tentava me entrosar. A mim só restaram alguns resfriados que duravam dois dias no máximo, algumas vezes caindo no fim de semana, o que era totalmente sem-graça para quem queria ter algo empolgante para compartilhar.
Eu sempre quis ser alguém. Eu sempre quis ter a sensação de que existe algo pra mim no mundo, algo grande, algo especial. Então, o Sávio me notou e eu entrei pra ANNA. E agora, meu escritor preferido me deu a força mais preciosa que eu poderia querer em termos de ajuda, e em breve vou poder ser agenciado e notado por uma grande editora. Meus contos vão deixar de existir apenas na memória do meu computador e poderão ganhar o mundo e conquistar pessoas. Eu! Um cara que sempre passou despercebido e praticamente invisível. Um cara que, num concurso de losers, não ganharia nem menção honrosa... Olha só aonde eu já cheguei! Paro pra pensar no tamanho do impacto disso pra aquele menino que eu era e simplesmente não consigo acreditar. È maravilhoso demais!
Eu vou realizar um baita de um sonho. Eu vou realizar um dos maiores sonhos da minha vida. Você já se sentiu como se fosse um carro a toda velocidade e perdesse os freios? Que nada pode te parar? Que você tá vindo com tudo e nada, nem ninguém, vai te parar? E que você vai passar por cima de tudo, detonando o que aparecer no caminho, e o estrago vai ser lindo e épico? Eu vou realizar um sonho!
O telefone toca de novo.
“Oi, Madonna!”
“Seu Denner, tem uma mulher e um homem aqui pra falar com o senhor. Pedro Bispo e Olívia Dantas. Eles disseram que o senhor está aguardando por eles”.
Sempre tem os urubus pra querer atrapalhar a paisagem...
“Urubus, seu Denner?”
“Hã? Não, Madonna, desculpa... Eu... Nada, nada. Diga pra eles que eu já estou saindo pra atendê-los, ok?”
Desligo.
Mal recebo uma novidade formidável, já vou ter de lidar com esses dois malas. E pelo visto hoje não tenho como escapar.


(Milena)


Nem bem terminamos o café, pedi licença a Juliana e fui me arrumar. Já é quase meio-dia e aqui estamos, na sede da ANNA.
Meu Deus! Quantas memórias! Não posso negar que a maioria delas são gostosas e também dignas de boas gargalhadas.
O prédio continua igualzinho, só que a fachada já começa a dar sinais de desgaste e está descascando em alguns pontos.
Ao abrir a porta de vidro, me deparo com dois rostos desconhecidos e o de Madonna.
“Dona Milena!”, ela se surpreende, levantando-se de trás de sua mesa de recepcionista para me abraçar. “Minha nossa, que bom lhe ver! A senhora vai voltar a trabalhar aqui?”
“Madonna!”, eu a abraço com ternura e muita saudade. “Que nada, infelizmente não!”
Lanço um olhar simpático ao casal sentado no sofá da recepção, ambos apresentando uma sobriedade e seriedade assombrosas. Que esquisito! Raramente há dois clientes ao mesmo tempo esperando pra serem atendidos. Ou, talvez, depois que eu saí, o negócio começou a bombar tão loucamente a ponto de ficar “lotado”.
Um homem vem lá de dentro, atravessando a porta que dá acesso às salas internas. É um rapaz da minha faixa etária, provavelmente o Denner de quem Sávio já me falara. O meu “substituto”.
“Bom dia”, diz ele, hesitante, olhando pra mim e logo em seguida para o casal no sofá.
“Seu Denner, essa é a dona Milena, a ex-sócia da agência”.
“Aaaah!”, ele parece se lembrar. “É claro! Poxa, desculpa não ter reconhecido você...”
“Verdade, a gente meio que já se conhece, né?”
“Pois é, mas...”, ele se agonia tentando se lembrar exatamente de onde.
“Do velório da Rita Lina”, recordo.
“Isso mesmo! É, é verdade. Eu trabalhava na capela funerária”.
“Prazer em te conhecer de verdade dessa vez”, brinco.
“Prazer em te conhecer de verdade também”.
Apertamos as mãos e, apesar do clima amigável, este moço não parece muito à vontade. Pode ser porque ele tem noção de que entrou pra agência quando minha relação com Sávio se abalou, então talvez isso o faça se sentir meio intruso. Entretanto, algo me diz que tem a ver com o estranho casal, isso sim.
“O Sávio tá por aí?”, dirijo-me a Madonna.
“Ele ainda não apareceu por aqui hoje, dona Milena”.
“Sério? Será que tá numa missão?”
“Acho difícil”, responde Madonna. “Ele não comentou nada”.
Juliana me olha frustrada, e sem emitir som eu mexo os lábios dizendo “relaxa”.
“Eu tô precisando muito falar com o Sávio, viu, Madonna? Vou tentar mandar mensagem pra ele ou ver se ele tá em casa. Mas, qualquer coisa, você pode passar o recado que eu vim aqui? É meio urgente”.
“Claro, dona Milena, pode deixar comigo”.
“Só espero que isso não seja um mau sinal”, murmura Juliana.
“Ih, menina, para com isso!”, repreendo-a, tirando um par de óculos escuros da bolsa e colocando sobre o rosto. “Eu prometi que você ia ser ajudada, e você pode contar com isso. Ou eu não me chamo Milena Kerber!”
A mulher no sofá, uma loura muito elegante com ares de quem trabalha em gabinete de político, me olha com certa curiosidade, como se eu tivesse algo interessante a oferecer. Porém, provavelmente, é só implicância minha, apenas por achar que eles estão deixando o coitado do Denner aflito. Nem conheço o sujeito muito bem, mas já estou lutando a seu favor.
“Obrigado, Madonna! E Tchau pra vocês, tenham um bom trabalho!”
Enquanto Juliana e eu damos as costas para sair, Madonna e Denner me dão “tchau” em uníssono.
Não quis deixar transparecer, mas espero que essa ausência do Sávio realmente não seja um mau sinal.


(Denner)


O dia pelo qual tanto temi, enfim chegou.
“Depois de você nos enrolar por tanto tempo, até que enfim vamos poder fazer algo concreto”, comenta Olívia, já no carro comigo e Pedro. Ele é quem dirige.
Me sinto acossado no banco de trás. Admiro de eles não terem me algemado a fim de me impedir de abrir a porta no meio do caminho e fugir, mesmo me arriscando a rolar e me ralar no asfalto.
“Mal posso acreditar que enfim vamos conhecer a Rita Lina”, Pedro quase cantarola a frase, de tão exultante.
“Mas os pais dela vão estar presentes”, faço o possível para cortar um pouco o barato deles. “Não se esqueçam disso!”
“Pedro, coloca um pouco de Bowie aí!”, rosna Olívia.
Com uma mão no volante e outra no som do carro, ele mexe no aparelho, meio a contragosto.
“Só tô colocando porque é a sua vez de escolher a música”, resmunga Pedro. “Pode ser ‘Starman’?”
“Pode ser qualquer uma. David Bowie é escolha certeira”.
“Ah, ótimo! Pelo menos não vou precisar ficar escolhendo, porque é um saco!”
“Sua má vontade não vai matar meu otimismo, Pedro. Meus bons pressentimentos estão ainda mais fortes”.
Me reservo de dar atenção a eles com seus atritos idiotas e tento me concentrar em como eu ainda posso tomar alguma atitude pra impedir que eles consigam convencer Rita Lina e seus pais de qualquer coisa. Não confio nesses dois. Mas, antes de mais nada, mentalizo patinhos em fila caminhando graciosamente numa rodovia...


Estou nervosíssimo. Parado à porta da casa dos meus sogros, acompanhado de duas pessoas pelas quais a minha antipatia só cresce, me sinto um traidor que leva o predador direto para a toca das presas. E as presas, coitadas, nem sonham que estão prestes a ser devoradas.
“Denner?”, dona Túlia me recebe, de avental, surpresa porque eu, gênio, nem avisei que viria.
“Oi, dona Túlia. Tudo bem?”
Minha sogra é esperta, deve ter sacado que estou falando com o mesmo grau de emoção que uma máquina de estacionamento de shopping.
“Sim, tudo bem. Entra!”, convida ela, ao mesmo tempo em que me indaga com o olhar quem são os meus “amigos”.
“Esses são o Pedro e a Olívia. Viemos ver a Rita. Ela está?”, pergunto, sem ainda querer entrar.
“Está sim. Eu vou chamá-la. Podem entrar!”
“Obrigado”, digo, entrando a passos de lesma, como se cada segundo fosse crucial e pudesse evitar o que viemos fazer aqui.
Após uns trinta segundos, Rita vem para a sala; tão linda e engraçadinha, o meu amor. É uma preciosidade tão significativa na minha vida que me bate um desespero só de pensar que pode ser roubada de mim. Não posso me permitir perdê-la.
“Pokémon!”, ela diz, arregalando os olhos de felicidade ao me ver, me dando um abraço e um beijo. “Que surpresa, meu amor!”
“É...”, dou um sorriso amarelo.
“Oi!”, ela se dirige a Pedro e Olívia, que acenam as cabeças como se fossem de bem.
“Você tá bem, amor?”, pergunto, na ilusão de estar ganhando tempo.
Sinto o olhar de Olívia expressando que gostaria de pôr as mãos no meu pescoço e me esganar por eu estar enrolando tanto.
“Estou bem sim”, responde Rita. “Eu tava arrumando o quarto e adivinha só: encontrei umas caixas com um monte de cartinhas da infância. Da época em que eu me comunicava com Nick, Nicka, Luke e Luka”.
“Nick, Nicka, Luke e Luka?”, pergunto.
“Meus amigos imaginários”, esclarece ela. “Bom, Nick e Nicka eram os meus amigos imaginários, mas o Luke era amigo imaginário do Nick e a Luka era amiga imaginária da Nicka. Bons tempos! Eu vivia tirando onda dos erros gramaticais do Luke, mas hoje eu sei que aquilo na verdade era dislexia. É uma pena que ele foi embora e eu nunca tive a chance de me desculpar por ter sido tão cruel”.
“Olá, Rita Lina!”, intromete-se Olívia. “Meu nome é Olívia Dantas e esse é meu... colega, Pedro Bispo. É um grande prazer conhecê-la”.
“Muito prazer”, diz Pedro.
“Legal”, comenta Rita. “Bom, o prazer é meu. Mas aconteceu alguma coisa?”, essa pergunta ela dirige para mim.
“Você pode chamar os seus pais?”, solicita Pedro. “É que não podemos gastar muito tempo, então precisamos ir direto ao ponto. E precisamos deles aqui”.
“Do que se trata?”, indaga Rita, desconfiada.
“Amor”, intervenho, “por favor, chame seus pais, tá? Eu juro que não vai demorar”.
Ainda muito desconfiada, ela se afasta um pouco e vai até a cozinha, onde chama a mãe alto o suficiente para que ouçamos. Depois, muda de direção, como quem vai para algum outro cômodo da casa e chama o pai.
Estou muito apreensivo.
Dona Túlia e Seu Laerte aparecem na sala, visivelmente retirados de importantes ocupações, mas sem parecer aborrecidos por causa disso. A mãe ainda está de avental, limpando as mãos num pano de prato, enquanto o pai está vestindo um macacão todo sujo de graxa. Curiosamente, o cabelo está impecavelmente penteado e até tem um topete que provavelmente não se mexeria nem se estivesse havendo um terremoto.
“Dona Túlia e Seu Laerte, gostaria de apresentar a vocês a Olívia Dantas e o Pedro Bispo. Eles querem levar uma palavrinha com vocês”.
“Muito bem”, diz o Seu Laerte. “Vocês aceitam um café?”
“Não, obrigado”, corta Olívia, movendo-se em direção a um dos sofás presentes. “Será que podemos todos nos sentar?”
Rita e seus pais se entreolham, em seguida olham para mim, como que me questionando o porquê de tudo aquilo. Então, como que provando que está “tudo bem”, sou o primeiro a me sentar, dando uma demonstração de que eles podem confiar nos visitantes misteriosos.
“Amor, por que você disse que está tudo bem entre aspas?”, questiona Rita.
Maldito pensamento oral. Opa! Como ela sabe que havia aspas no meu “tudo bem”?
Ignorando esses detalhes, os pais e a filha resolvem se sentar. Por fim, Pedro e Olívia também.
Sem mais delongas, Olívia dá o pontapé inicial:
“Meu colega e eu estamos aqui em nome de uma importante missão, e tanto ele como eu precisamos ser pagos por este trabalho. E, para sermos pagos, precisamos cumprir a missão”.
“Ok”, acompanha dona Túlia. “Mas que missão é essa?”
“Para irmos mais a fundo no assunto, Rita Lina precisa dormir”, avisa Olívia, fazendo uma mesura com a mão direita, uma mistura de aceno de “tchau” com estalar de dados.
E assim, sem mais nem menos, Rita apaga. Do mais puro nada, como se tivesse sido desligada da tomada, o corpo desabando como fruta madura sobre o colo da mãe ao seu lado.
“Meu Deus! Filha!”, assusta-se dona Túlia.
“O que é isso?”, Seu Laerte tenta sacudir a filha gentilmente, o desespero aparecendo em sua face.
Faço menção de me levantar, mas Pedro coloca o braço na frente e cochicha:
“Não foi nada. Eu te falei que a Olívia tem certas... habilidades”.
“Mas...”, tento argumentar.
“Por favor, fiquem calmos. Ela só está dormindo um pouquinho”, diz Olívia. “É necessário, pra que ela não tenha que escutar algumas coisas que vamos falar aqui”.
“Moça, o que você fez com a nossa filha?”, irrita-se dona Túlia, em vão tentando acordar Rita.
“Dona Túlia e Seu Laerte”, Pedro toma a palavra, “Olívia e eu viemos buscar a Rita Lina. Os verdadeiros pais dela estão desesperados em busca da filha, desde que ela sumiu há quinze anos”.
“Como é que é?”, diz Seu Laerte, com o topete ligeiramente balançando, o que é sinal de que ele está realmente tenso. “Que história é essa de pais verdadeiros? E vocês, quem são? Nós nem conhecemos vocês!”
“Nós não somos importantes”, desconversa Olívia, mantendo uma postura calma de quem está disposta a ter o que quer. “Somos só pessoas encarregadas deste trabalho. E não estamos aqui à toa. Vocês sabem do que estamos falando. Vocês sabem que não são os pais verdadeiros dela”.
Por um raio de segundo, meus sogros trocam um olhar que desafia minhas certezas. O que foi esse olhar entre eles? Será que Olívia tem realmente um trunfo?
“Não sabemos do que vocês estão falando”, retruca dona Túlia, quase tropeçado nas palavras. “E é melhor vocês irem embora da minha casa. Eu não admito esse tipo de palhaçada debaixo do meu teto. E tratem de acordar a minha filha também!”
“Não se preocupem”, tranquiliza Pedro, “ela vai acordar em no máximo duas horas. Mas, por favor, dona Túlia e Seu Laerte, coloquem-se no lugar dos pais dessa moça. Sabemos do sofrimento de vocês, mas vocês não podem remediar a perda que tiveram. Eles sim. A filha deles só está no lugar errado, mas ainda está viva. Eles têm o direito de tê-la de volta”.
“Cala a boca!”, grita dona Túlia, começando a chorar.
Seu Laerte já não sabe se consola a mulher ou se tenta acordar Rita; seu semblante também fica igualmente abalado, e lágrimas já começam a nascer.
“Olha, pra não passarmos por pessoas frias e sem coração, sentimos muito pela sua perda, mas vocês precisam ser justos e devolver o que não pertence a vocês”, ratifica Olívia.
“Perda?”, estou confuso. “Mas que perda?”
“É a história que você não sabe, Denner”, conta Olívia.
“A história verdadeira sobre a Rita Lina”, ressalta Pedro.
“Como assim, gente?”
“Os detalhes que ficamos de te contar quando fosse oportuno. E, bem, é oportuno agora”, diz Pedro.
“Por favor, dona Túlia e Seu Laerte”, pede Olívia, “sejam razoáveis com a gente e admitam a verdade. Admitam que essa moça desacordada aí não pertence a vocês. Mais uma vez eu apelo: pensem no quanto os pais dela já sofreram. Pelo amor de Deus, são quinze anos!”
“Não! Vocês estão enganados, essa é nossa filha. Rita Lina é nossa filha e sempre vai ser. Nossa, nossa, nossa!”, esbraveja seu Laerte, enquanto a mulher se acaba em choro.
“É, eu já imaginava que ia ser difícil”, Pedro se levanta, colocando a mão sob o paletó.
“Nem se atreva, seu desgraçado!”, ajo com uma impressionante rapidez e acerto um soco na testa dele, impedindo-o de pegar o revólver para ameaçar os familiares da minha namorada. Droga, era pra ser no meio da cara e com alguma sorte até mesmo quebrar seu nariz, mas não deu tempo de calcular direitinho o trajeto do soco, minha ação foi repentina demais. Pelo menos deu para fazê-lo cambalear e cair de volta no sofá.
“Merda, Denner, tá maluco?”, ele se revolta, balançando a cabeça como se isso fosse desfazer a dor.
“Me enfrenta, seu filho da mãe! Mas vem sem arma se for homem!”, desafio-o.
“Arma? Que arma o quê! Eu nem vim armado, seu louco! Eu só ia pegar uma foto no bolso do paletó”.
“Ah, é?”
Após o susto com o meu ato abrupto, Pedro apanha a foto sob o paletó e leva até os pais de Rita.
“Olhem”, diz ele.
Ao olharem a imagem, a angústia no rosto deles fica ainda maior.
“Vão continuar negando?”, perdura Pedro.
“Que foto é essa?”, inquiro.
“Guarde isso!”, implora dona Túlia. “Guarde isso!”
Seu Laerte faz o movimento de que vai arrancar a foto da mão de Pedro, mas este é mais veloz e puxa-a para longe. Depois, volta para o sofá onde estamos Olívia e eu.
“Dá uma olhada”, ele estende a foto pra mim.
“Foi mal pelo soco”, lamento, sem graça. Mas ele está disposto a relevar.
Vejo uma garota na foto e não entendo nada. Não faz muita diferença pra mim, pois não a reconheço e provavelmente jamais vi.
“O nome dela era Karen”, é dona Túlia quem surpreendentemente tira minha dúvida.
“Karen?”, movo a cabeça, confuso.
“Sim”, ela continua. “Nossa filha. Um dia, ela... simplesmente desapareceu. Foi sequestrada, na verdade. Isso faz uns dezesseis anos. Depois de passar quase um ano procurando por ela incansavelmente, a polícia encontrou um corpo abandonado no meio de uma mata. Fizeram todos os testes e constataram que... que... era ela. Morta”, ela se interrompe, a emoção tomando conta de seu relato.
Sinto um calor pousando com veemência sobre o meu rosto. É como se o clima ao redor tivesse sido invadido por uma sensação irreparavelmente sombria.
“Uns três meses depois, ainda não tínhamos superado a perda da Karen, é claro”, é Seu Laerte quem prossegue narrando. “Mas estávamos indo ao supermercado no carro da empresa que eu trabalhava na época e voltamos de noite. Foi então que, no meio da estrada, quase atropelei uma jovem, uma adolescente. Ela tinha aparecido do nada, desesperada por ajuda. Eu parei no carro e fomos acudir a menina. Ela não estava suja nem nada disso, mas estava claramente perturbada, como se não soubesse onde estava”.
“Rita”, concluo.
Seu Laerte confirma com a cabeça. Continua contando:
“Em vez de levarmos para a polícia, nós a trouxemos pra casa. Demos comida, banho, tentamos descobrir mais informações sobre ela, mas a menina não falava coisa com coisa. A única coisa que deu pra descobrir foi que ela se chamava Rita Lina. Enfim, fomos cuidando dela e cuidando... Até que virou nossa filha. Um belo dia, qualquer que fosse a origem dela, aparentemente foi tudo apagado de sua memória. Ela foi ficando com a gente como se fosse nossa filha desde sempre. E assim ela cresceu, sendo amada e feliz. Nossa Rita Lina!”
“Foi Deus quem enviou ela pra nós”, dona Túlia está se recuperando do choro. “Ela caiu do céu pra nós, ela é um presente que veio no momento que mais precisávamos. É como se a nossa Karen tivesse pedido ao próprio Deus que nos mandasse uma filha, pra gente não morrer de tanto sofrimento”.
“Sim, sim, são palavras muito bonitas, dona Túlia. Mas ela não pode ficar. O mundo dela não é aqui. Sinto muito”, racionaliza Olívia.
“Moça, como você consegue ser tão sem-coração?”, avalia Seu Laerte. “Se os pais dela estão tão desesperados assim, por que esperaram quinze anos pra vir atrás da filha?”
“Muito simples, senhor”, retruca Olívia, meio ressabiada pela forma como o Seu Laerte a tratou, armando-se de sua típica arrogância. “Assim como vocês, eles passaram muito tempo procurando também. Até que nossa chefe, a pessoa que nos enviou até aqui, que é amiga dos pais da Rita, conseguiu reunir um considerável grupo de pessoas que passaram a incentivar pesquisas científicas a respeito das teorias dos múltiplos universos. Pra resumir a história, os pais verdadeiros de Rita Lina passaram todos esses anos alimentando a esperança de que a viagem entre realidades paralelas pudesse trazer pistas concretas sobre o paradeiro da filha deles. Num salto de fé e desespero, eles se agarraram à chance mais improvável de achar a filha deles, que, por coincidência ou não, também havia sido provavelmente sequestrada. E nos últimos tempos, meu colega e eu fomos recrutados para sair à caça da filhinha querida deles. E depois de muita pesquisa e investigação, aqui estamos nós. E a nossa chefe é tão gente boa que nos proibiu de usar recursos mais... convincentes, senão nem estaríamos tendo esse papinho civilizado com vocês. Mas ela nos obrigou a fazer tudo dentro dos parâmetros mais diplomáticos possíveis, só que vocês não querem colaborar”.
Olho bem sério para ela, mas a infeliz não esboça qualquer intenção de se desculpar por sua sinceridade tão brutal.
“Que história é essa de realidade paralela?”, pergunta Seu Laerte, com receio.
“É como se fosse tudo igual à realidade que estamos acostumados, mas que pode ter diferenças significativas”, explana Pedro. “E uma prova de que a Rita vem da mesma realidade que Olívia e eu está diante de nós: a Rita só está dormindo porque a Olívia fez isso com ela. Mas essa habilidade da Olívia só tem efeito em pessoas do ‘nosso mundo’ ou em crianças”.
“É verdade”, confirma a megera. “E, Denner, megera é a sua avó, tá? Mas enfim, se eu pudesse colocar todos vocês para dormir agora, faria com todo o prazer, e aproveitaria pra fugir, já que toda a conversa que nos comprometemos a ter já aconteceu”.
“Se a Rita é de outra realidade, como ela veio parar aqui na nossa realidade?”, pergunta dona Túlia. “Essa baboseira toda não faz o menor sentido”.
Pedro e Olívia se entreolham, porque essa resposta eles não têm.
“Infelizmente não sabemos ainda”, lamenta-se o careca. “Mas temos algumas teorias. Talvez ela tenha encontrado algum portal ou alguma passagem sem querer. Talvez tenha sido trazida ou escondida aqui, não sabemos. Porém, isso não importa. Nós a encontramos e temos como levá-la de volta, então a forma como veio parar aqui não faz diferença no fim das contas. E então, dona Túlia? Seu Laerte? Podemos continuar e cumprir nossa missão?”
Seu Laerte pede licença da esposa, levanta-se com jeitinho e vai andando em direção a algum cômodo da casa.
Pedro e Olívia encaram dona Túlia, que encara de volta como quem está determinada a não devolver Rita para ninguém.
“Sumam da minha casa agora, vocês dois! Rápido!”, Seu Laerte retorna, segurando uma bela de uma espingarda apontada em direção aos dois patifes.
“Ei, ei, ei! Calma aí, Seu Laerte!”, Pedro se assusta e o medo se alastra imediatamente pelo seu rosto branquelo.
“Mas o que é isso? Esse homem é louco!”, grita Olívia, apalpando-se em busca de uma arma, mas bufa de ódio logo em seguida por ter cumprido a obrigação de vir desarmada pro encontro.
“O senhor não atiraria em nós”, diz Pedro, quase suplicando.
Nem bem ele termina de falar, uma bala passa a alguns centímetros de sua careca. Dá até pra ver uma fumacinha acima da cabeça dele. Achei que ele fosse desmaiar aqui mesmo. Eu estou assustado também, é claro, e delicadamente vou me afastando, embora eu saiba que o meu sogro não atiraria em mim, já que eu não fiz nada. A não ser, é claro, trazer esses dois aqui.
“Não se preocupe, Denner”, meu sogro me tranquiliza. “Você não fez por mal. Só que essas pessoas vão sumir da minha casa e vão de mãos vazias. Vão embora! Xô!”
Olívia olha para Pedro. Ele só faz dar de ombros, não tem a menor ideia do que fazer para remediar sua situação. Olívia grunhe de ódio, cerra os punhos e marcha relutante e enfurecida até a porta. Feito um cachorrinho amedrontado, Pedro segue atrás dela.
Seu Laerte se aproxima da porta, mantendo a espingarda firme nos braços, e só a abaixa depois de ver o carro deles se distanciando bastante.
“Você foi maravilhoso, meu amor”, dona Túlia vibra.
“Obrigado, meu amor!”, diz ele, limpando o suor da testa e tentando ajeitar o topete.
“Eu tô preocupado”, confesso. “Eles são perigosos. Precisamos ter muito cuidado depois dessa”.
“A gente vai pensar em alguma coisa”, dona Túlia fala com uma voz reconfortante, acariciando os cabelos da filha, que dorme profunda e lindamente, como o anjo mais belo e a bênção mais magnífica na vida dos três acordados aqui.


(Mais tarde, no apartamento 815 no Hotel Oceânico...)


Pedro está tenso, segurando há vários minutos um copo que continha água e olhando para o monitor da televisão na sala.
Olívia continua arfando de raiva, também fitando o monitor da TV.
“Eu quase me borrei todo quando ele apareceu com aquela esping...”
“Cala a boca”.
“Grossa!”, reclama ele, levando o copo à boca e só depois percebendo que estava vazio.
“Eu tô cansada dessa missão idiota. Assim que ela aparecer, vou pedir demissão. Eu podia estar fazendo outras coisas, mas tô aqui procurando filho perdido dos outros. Que merda! Que merda!”
“Isso se ela não te demitir sem você pedir, né, querida? A gente fracassou bonito”.
“Aquele paspalho do Denner deve estar rindo da gente”.
“O Denner não é problema, eu te garanto. Ele é um bom rapaz”.
“É, você deve estar a fim dele”.
“Sua visão sobre as pessoas como eu é tão rasa, Olívia. Mas eu tenho classe demais pra perder meu tempo discutindo por causa disso”.
O monitor liga de repente. Através de um aparelho que eles trouxeram “lá do outro lado” e foi acoplado à TV comum deste lado, é possível fazer videoconferências com a chefe.
Uma mulher bonita de cabelos muito escuros, mas que não chegam a ser pretos, de olhos castanho-claros, enrolada num roupão de banho azul-marinho, surge na tela. Ela deve estar na casa dos 50 anos.
“Pedro! Olívia! O que houve? Eu vi a mensagem de vocês pra fazer uma videoconferência de urgência. Aconteceu algum problema?”
Um olha para o outro sem saber quem deve falar primeiro.
“Vão ficar aí mudos? Sério, eu mal saí do banho e já vim logo falar com vocês porque fiquei preocupada”.
“Senhora, aconteceu um problema sim”, inicia Pedro, já que toda a coragem de Olívia parece ter se esvaído. “Quando estávamos na etapa final para resgatar a Rita Lina, aconteceram alguns... é... contratempos, digamos assim. E a Olívia está pensando seriamente em desistir”.
“Desistir?”, a mulher do outro lado da tela demonstra decepção. “Mas que contratempos foram esses?”
“O homem que está fazendo o papel de pai da Rita nos ameaçou com uma espingarda, senhora. Ele nos botou pra fora da casa dele”.
“Senhora”, Olívia volta a ter coragem, mas com uma ponta de hesitação, “só preciso de uma simples autorização para usar recursos que podem fazê-los mudar de ideia rapidinho. Basta um ‘sim’ seu, para a missão ser cumprida com eficiência”.
A mulher faz um muxoxo de discordância. E replica:
“Desculpa, Olívia, mas eu já disse que não aprovo esses métodos. Só peço que vocês aguardem enquanto eu penso em outra coisa e volto a entrar em contato em dois ou três dias”.
“Então estou fora, senhora”, cospe Olívia. “Com todo o respeito, mas eu estou fora. Desculpe a franqueza, mas eu não quero mais passar um dia sequer lidando com essa missão”.
“É sério?”, a mulher, estranhamente, não está tão surpresa.
“O homem atirou em nós”, especifica Pedro. “Não pra matar, mas estávamos desarmados. A senhora deixou bem claro que nós não podíamos usar de violência contra ninguém, mas em compensação estamos arriscando nossas vidas”.
Agora eles conseguiram deixar a mulher deveras pensativa, e completamente transtornada por não saber que instruções lhes dar a partir deste instante. Contudo, abortar a missão está fora de consideração.
“Vou pedir uma coisa pra vocês, mas quero me escutem com muito carinho, por favor”, anuncia ela.
Olívia e Pedro estão atentos.
“Descansem nos próximos dois ou três dias, e eu vou pensar em alguma coisa pra resolver essa situação. Vocês estão muito estressados. Quero que usem essa folga sem se preocupar com nada. Apenas descansem, tudo bem?”
Pedro respira fundo, reflete por um momento e assente.
Olívia reluta um pouco, mas também concorda.
“Obrigada!”, diz a mulher na outra realidade. “Bom, então acho que é isso, certo?”
“Senhora Fabiana!”, Olívia ainda tem algo a acrescentar.
“Diga”.
“Eu achei que talvez a senhora fosse gostar de saber que hoje eu vi a sua filha Milena. Ela está aqui”.
“O quê?”, pergunta a chefe, um tanto atordoada e quase sem voz. Ela não estava preparada para escutar tal coisa. “Olívia, você tem certeza?”
“Com a mesma certeza que eu sei que eu estou olhando agora pra senhora”.
Os lábios de Fabiana Kerber aos poucos vão formando um sorriso vívido, ao passo que os olhos vão ficando marejados. Esta informação é tão impactante que em poucos segundos ela começa a chorar, sentindo o peito ser atravessado por esse sentimento sufocantemente bom de saber a respeito de sua filha. Após tantos anos procurando e os resultados sempre desoladores, sua esperança foi espatifada. No entanto, com o ímpeto que só as boas surpresas podem trazer, finalmente ela encontrou um universo em que sua filha tão amada está viva. Milena está viva!
Então, como alguém que se depara com o sol dando as caras após longos dias de intensa chuva, Fabi vislumbra planos outrora esquecidos e que podem voltar a ser traçados. Seu coração está reanimado novamente.