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28 de outubro de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x11: O PLANO LAURA PALMER



(Denner)

Luzes se acendem. De repente, estou acordado, os olhos se acostumando à claridade, porém um dos cantos do quarto se mantém escuro, estranhamente. A cama e os outros objetos sumiram, e eu estou sentado numa poltrona de couro preto, bastante confortável. Estou de terno, o que é muito incomum, já que eu nem sequer tenho um. Meus cabelos estão molhados, penteados pra trás, como eu mesmo jamais vi. Um cheiro paira no ar. Café? Além disso, há outro aroma, algo mais frutado, delicado.
Por algum motivo desconhecido, sei que este é o meu quarto, mas estou tão lúcido que nem me sinto num sonho. Tudo ao redor está diferente; o chão, as paredes e o teto estão pintados de listras brancas e pretas, ajustadas em ziguezague, sobrepondo-se umas às outras.
Ao lado da minha poltrona, identifico o que atrai meu olfato. É café mesmo. Quentinho, com a fumacinha cheirosa subindo da xícara farta. E tem um generoso pedaço de torta, com uma cara apetitosa. Parece com aquela torta de cereja que eu experimentei na casa do Hektor Casanova...
Num crescendo, um som característico de lambada invade o ambiente. É impossível não saber que se trata de “Chorando se foi”, daquele antigo grupo Kaoma, só pelos acordes iniciais. Mas quem é que sonha com lambada? Bom, sonhos não fazem sentido.
E o tal canto que estava escuro ganha luz, como se um holofote só para ele tivesse sido aceso. Uma curiosa figura de baixa estatura está dançando a lambada, com graciosidade e... hã... um certo esforço de sensualidade, talvez? Pelo menos essa deve ser a intenção da pessoa. Já vi essa anãzinha antes. O nome dela é Borsana. Outro suposto holofote se acende a mais ou menos um metro de distância dela. Seu irmão gêmeo Bóris é quem está assumindo o vocal da performance, com igual entusiasmo (e um surpreendente grave na voz bem gostoso de ouvir). Eu estou sorrindo, não sei o porquê. Assisto a tudo no estado mais pleno de paz. Arrisco até a dizer que estou tendo um momento muito divertido, balançando a cabeça levemente enquanto me deixo apossar pelo ritmo envolvente da lambada.

Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar...

Do mais profundo das minhas lembranças, me vem uma conversa que tive pouco tempo atrás com Bóris, e me recordo dele me indagar se eu gostava de lambada. E agora, me deparo com isso. Como as duas coisas podem estar conectadas? Sonhos não fazem sentido, mas o ruim é quando eles fazem ainda menos sentido ao trazerem referências que nem na realidade a gente entendeu.

Canção, riso e dor, melodia de amor
Um momento que fica no ar...

Por que estou sonhando com os anões serviçais de Hektor? Eu tenho trauma de anões, todo mundo conhece a história; a julgar por essa referência, o mais correto seria dizer que estou num pesadelo. E por que isso parece tão real? Como é que eu sou capaz de saber que isso é um sonho?
Bóris para de cantar e engata um solo admirável de saxofone, apesar de eu ter a vaga lembrança de que na versão original da canção isso não existe. E Borsana se acaba dançando, suando tanto, mas desenvolvendo a atividade como se fosse seu último dia no mundo.
A apresentação dos irmãos termina. Sinto vontade de aplaudir, mas do nada o clima fica tão solene que nem parece que agora há pouco o quarto estava mergulhado em uma alegria caliente. Mas isso é um sonho, não é? Os sonhos não se preocupam em seguir a lógica, muito menos de construir alegrias num momento, só para detoná-las num instante seguinte sem a menor pena.
Borsana sobe com certa dificuldade numa poltrona perto de mim, enquanto Bóris vem caminhando em passos lentos e meio desengonçados, carregando o saxofone com ambas as mãos, encarando-me sério. Ele está usando um paletó vermelho, com uma camisa vermelha por baixo e uma calça― adivinhe!― vermelha também.
Bóris, por sua vez, diferentemente de sua irmã e eu, não se senta numa poltrona, mas num sofá de três lugares. Assim como eu, tanto ele quanto Borsana têm café e torta de cereja à disposição. Não dá pra mensurar o tempo com precisão aqui, mas um longo tempo se passa enquanto Bóris me encara, pensativo. Borsana apenas come torta e beberica café, cantarolando  “Chorando se foi” baixinho, alheia à qualquer coisa.
“Áh sopmet êcov oãn aimrod oãt meb missa, Denner”, sibila Bóris, de trás pra frente.
“Se eu estou dormindo, como consigo sentir tudo tão... intensamente?”, respondo-lhe com outra pergunta, o que é surpreendente, pois eu entendo o que ele diz sem o menor esforço. É como se eu tivesse habilidades especiais neste universo delirante. “Meus sentidos estão totalmente ligados e minha consciência e percepção das coisas também”.
“Sues soditnes oãtse sodagil iuqa euqorp êcov asicerp seled, sam on onalp ‘laer’, rop missa rezid, ues oproc átse me odnuforp odatse de otnemaxaler, omoc êcov mev odnasicerp áh said. Outse otrec, oãn?”
Com um gesto quase ensaiado, apanho a xícara da mesinha ao lado da minha poltrona, levo-a até as narinas, deixo o cheiro agradável do café atravessar os meus sentidos.
“É”, concordo com Bóris. “Dormir não tem sido fácil”.
“Amoc ad atrot”, ele mexe o queixo em direção ao meu prato.
Não havia um garfo ao lado do prato de torta segundos atrás, mas como isto é um sonho, então não é com a materialização repentina de um garfo que eu vou me preocupar.
“Está gostosa , como da outra vez”, elogio, mastigando a primeira garfada.
O olhar fixo de Bóris esquadrinha meu rosto. Me encabulo. Por um momento fico me sentindo como um experimento científico, onde a qualquer minuto vou demonstrar reações previamente esperadas devido a estar comendo da torta e bebendo do café.
“Por que eu estou aqui?”
“Met azetrec ed euq é ossi euq êcov reuq ratnugrep, Denner?”
Claro que eu tenho certeza, ora. Não tô acostumado a entrar tão fundo num sonho a ponto de interagir com as pessoas de forma tão vívida, quase como se... não fosse realmente um sonho. Peraí, não tem como não ser, o contexto todo é exagerado demais, não há a menor chance de eu ter marcado um encontro com esses dois numa sala misteriosa (que eu agora não sei dizer com certeza se é o meu quarto ou não) e não me lembrar disso. Ainda mais com um histórico como o meu envolvendo anões.
“Sohnos oãn masicerp res sanepa sasioc ueq someviv san sasson setnem”, filosofa Bóris, finalmente se servindo do café. “Sa sasioc ueq somezaf mun ohnos mecnetrep eleuqà odnum, oãtne é odacilpmoc ragluj euq sale majes siaerri ós euqrop somavátse odnimrod an oãisaco”.
“Isso é muito confuso pra mim”.
“O euq reuq ratnugrep, Denner?”
Ele esfrega as mãos após colocar um pouco de torta na boca, sem usar o garfo; o prato repousando em seu colo, como uma criança que vê TV e faz um lanchinho ao mesmo tempo.
Por que ele me oferece a oportunidade de fazer uma pergunta com esse ar misterioso incessante? Por acaso ele guarda todos os segredos do universo e está se gabando disso?
E se eu lhe perguntar, por exemplo, quando será a data da minha morte? Não, não, não, talvez algo mais urgente. Quem sabe se eu perguntasse o que devo fazer com Pedro e Olívia e encontrar uma maneira de fazê-los deixar a mim e, consequentemente, Rita em paz? Ou, indo mais além, e se eu perguntasse a ele como erradicar efetivamente a corrupção no Brasil? Ou, sendo mais abrangente e tentar obter a resposta que não deixa o mundo literário dormir: Capitu traiu Bentinho?
Bóris e Borsana começam a rir. Droga, será que me ouviram? Nem no sonho eu deixo de ter pensamentos orais?
Suas risadas são pavorosas. À medida que riem, a luz do ambiente fica mais baixa, tremeluzindo como se ameaçasse ir embora mas não vai. Uma sombra assustadora perpassa o rosto de cada um dos irmãos, até que a luz se restabelece de vez e Borsana simplesmente volta a comer sua torta. Bóris remove o prato do colo e o devolve à mesa. Em seguida, levanta-se com certa dificuldade em alcançar o chão facilmente, e vai andando até uma cortina de veludo vermelha. Por que esse sonho tem tanto vermelho?
Bóris dá meia-volta, exibindo um sorriso malicioso. Me olha com apenas metade do corpo direcionado pra mim e pergunta:
“Airatsog ed recehnoc Laura Palmer?”
Emudeço. Conhecer Laura Palmer?? De todas as coisas absurdas que se pode esperar acontecer num sonho, ficar frente a frente com uma personagem de livro é bastante invejável.
“Sim, por favor”, aceito sem a mínima hesitação.
O anão vai para trás da cortina e some. Perto de mim, ouço Borsana sussurrar uma música que não conheço.
Alguns segundos depois, Bóris sai detrás da cortina vermelha, de mãos dadas com uma mulher de cabelos tão loiros que chegam a ser quase brancos, amarrados como rabo-de-cavalo. Ela está elegantemente vestida; com um terninho preto estilo executivo, saia também preta, sapatos pretos de saltos baixos. Felizmente, Laura Palmer é mais bonita do que minha imaginação prévia concebera.
Não cheguei a fazer a tal pergunta a Bóris, mas por alguma razão ele sabia―melhor que eu, aliás―, que uma das questões que vem martelando e me matando por uma solução é justamente essa: como ajudar Hektor Casanova a se desapaixonar de uma personagem que ele mesmo criou? E então ele me traz Laura Palmer, o próprio objeto de paixão do meu cliente, para diante dos meus olhos. Como isso pode ser possível? Não há como desprezar a grandiosidade deste momento.
Bóris se senta de volta em seu sofá de três lugares; Laura se posiciona no mesmo sofá, mas na extremidade oposta à de Bóris, ficando um vão entre eles. Agora entendi porque havia esse sofá aqui.
“Muito prazer, senhorita Laura Palmer. Eu sou muito seu fã”, declaro.
Ela abre um sorriso lentamente; sua feição carrega uma melancolia opressiva, que, por mais que um par de lábios semiabertos tentem disfarçar, os olhos escancaram desesperança.
Sinto que eu deveria, por educação, me levantar para cumprimentá-la, mas é como se eu não tivesse o menor controle das minhas ações aqui. Domínio zero das minhas vontades. Algo me impede de sair do conforto desta poltrona.
“Você é o desapaixonador?”, indaga ela.
Ufa! Pelo menos ela fala as palavras na ordem normal.
“Sou um agente do desapaixonamento, pra ser mais exato”, esclareço, escondendo a surpresa de como é que ela sabe disso. Quero dizer, ela é uma personagem, um produto da imaginação de outra pessoa. Se bem que, eu sabendo dessas informações e nós estando no meu sonho, acredito que ela deva ter acesso à qualquer coisa relacionada a si mesma. Ainda bem que eu nunca fui como esses nerds pervertidos que se masturbam pensando em gente fictícia. Já pensou na vergonha que eu estaria passando agora?
“Aroga êcov edop ratnugrep à airpórp Laura Palmer omoc ale odep raduja êcov moc a aus edalucifid, Denner”.
“Nossa!”, me admiro, meu olhar certamente exprimindo alegria por enfim encontrar uma maneira de cuidar  do caso do Hektor, por mais absurda que essa maneira tenha se apresentado. “Eu só não imaginei que eu teria um sonho só pra me ajudar com isso”.
“Sam són oãn somatse on ues ohnos, Denner”, revela Bóris, voltando o olhar com doçura para Laura. “Somatse on ohnos aled”.
Me sinto afundar na poltrona ao constatar que o anão não está no menor clima para zoeira, e então a sala (que agora eu sei que não é mesmo o meu quarto) gira lentamente. Não há a menor lógica no que vou concluir agora, mas neste exato momento tudo parece fazer mais sentido. E, ao mesmo tempo, não faz sentido algum.


“Como faço pra ajudar o Hektor a se desapaixonar de você, Laura?”
Com suavidade, ela cruza as pernas e solta os cabelos, que se espalham deslizando com graciosidade por seus ombros.
“Eu não quero mais estar aqui”, afirma ela, simplesmente.
“Mas... Ué! Desculpa, mas eu não entendo. Não quer mais estar aqui? Aqui no sonho?”
Seus ombros caem, e ela inclina o busto um pouco para a frente, parecendo reflexiva; Ambas as mãos sobre as pernas.
“Não quero mais estar aqui, no lugar onde eu estou, no lugar em que nasci. Tem sido tão... sufocante. Tem sido um fardo. Eu já não tenho mais necessidade de estar aqui. Você entende?”
“Não”.
“Você consegue enxergar a tristeza? Existe uma música triste no ar; tudo ao redor apenas confirma essa tristeza constante”.
Tudo que ouço é Borsana sussurrando ainda a mesma música de minutos atrás, a tal que eu desconheço. Seria essa a “música triste no ar”? Tem uma pegada meio caída mesmo, uma melodia trágica, mas também bonita.
“Você parece muito triste, é verdade”, observo.
“Tantos livros e tantas investigações”, ela diz, com cansaço e certa frieza. “O Hektor me usou e explorou de todas as formas que um autor poderia abusar de um personagem. Anos a fio tendo de me submeter a todo tipo de tramas e reviravoltas, mortes e romances, segredos e mentiras. Estou irremediavelmente cansada”.
Ela tem um jeito todo poético de se expressar. É natural, sendo criatura de Hektor Casanova, cuja prosa é toda entremeada de um lirismo primoroso. Mas Laura Palmer tem tanta vida própria pulsando e uma personalidade tão marcante, que começo a enxergar razões para Hektor ter se apaixonado por ela.
“E o que você quer então?”, encorajo-a.
“Eu quero ser liberta desse fardo, sr. Agente do Desapaixonamento. Eu preciso morrer”.
As luzes começam a piscar na sala, novamente o ambiente sendo coberto por uma aura soturna. Sinto frio. O ambiente estava ameno o tempo inteiro, mas agora está com um frio esquisito. A sensação é de que a mera menção à morte, num universo onírico, acabe atraindo a presença do horror para o nosso redor.
“Morrer?”, repito, tentando entender se Laura quis ser literal.
“Morrer”, reforça ela.
“E como isso vai fazer o Hektor se desapaixonar de você?”
“Por que a paixão prende as pessoas. Mas o amor não. Amar também é deixar ir”.
“Então, se ele entender que te ama, ele vai entender também que precisa matar você. É isso? Mas não matamos a quem amamos. Ou não deveríamos matar”.
“Sou uma personagem, Denner”, argumenta Laura. “Na mente fértil do Hektor ainda existe um lugar em que ele tem consciência de que eu não sou de carne e osso, e que matar um personagem importante também pode ser um excelente recurso narrativo, porque traz impacto para a história, e se for feito da maneira certa, traz honra ao personagem que precisou morrer, pois este morre como herói ou pelo menos como alguém que cumpriu uma missão relevante naquele universo. Além do mais, ao me matar, Hektor não vai mais precisar ter nenhum tipo de obrigação comigo, não vai precisar se martirizar pelo fato de estar apaixonado por mim, porque o problema todo aqui é o fato de eu estar viva na imaginação dele. É aí que eu preciso ser eliminada, porque é aí que eu existo”.
“Os fãs também te adoram. Você também está na imaginação deles”, retruco.
“Minha morte vai ter significado diferente para os fãs. A ligação entre Hektor e eu é muito mais pessoal e profunda. Minha morte é a única solução”.
“Uau!”, exclamo, ligeiramente incomodado na poltrona que outrora me fora tão aconchegante. “Eu sinceramente não sei se teria coragem de chegar pro Hektor e propor uma coisa dessas. Não consigo nem imaginar como eu iria começar. Bom, primeiro que eu nem ia comentar sobre esse nosso encontro”.
“Você tem medo?”
“Não, é que... Não é exatamente medo. É que eu sou fã do Hektor e também sou seu fã. Entenda, eu nunca passei por isso, esse é o caso mais surreal que eu já tive e vou ter nas minhas mãos, então não é fácil. E se ele ficar com raiva de mim por eu ir até ele com essa ideia de que ele tem de matar você? E se ele ficar com raiva de mim?”
Bóris pigarreia em seu lugar, insinuando que quer a palavra. Laura troca um olhar misterioso com ele. Eu, por minha vez, já estou preparado para a próxima surpresa.
“A oãn res euq ele esnep euq a aiedi iof dele”, conjectura o anão mordomo.
“Como assim?”, estou claramente confuso.
“Etsixe amu amrof licáf de rartne an etnem ed amu aossep. E són sodemop et raduja a resseca a etnem od rohnes Casanova sévarta sod sohnos”.
“Peraí, o quê?”, vou ficando abismado com o que estou entendendo. “Você tá falando de entrar num sonho dele, que nem aquele filme com o Leonardo di Caprio?”
Bóris e Borsana trocam uma risadinha cúmplice, dessas de irmãos que aprontam juntos longe dos olhos da mãe. A anã, até então inexpressiva, comenta:
“Esse emlif iof aiedi asson, a etneg avat on roíam oidét e íad somevloser racoloc asse aiedi an açebac od roterid od emlif. A etneg oiem euq siuq ridivid moc o odnum mu ocuop od osson ohniderges”.
“Se meb euq sele mararegaxe me samugla setrap, sam euq es aned, o emlif é siamed!”, complementa Bóris. “Mifne, o euq átse me ogoj iuqa é raduja osson oãrtap a se ranoxiapased e, ao omsem opmet, rarvil Laura Palmer essed odraf. E es rof êcov, Denner, iav res siam licáf eled ratiderca, euqrop êcov recerapa mun ohnos eled, iav res omoc mu lanis”.
Laura Palmer me olha, esperançosa. Sou sua única e última aposta. E ela também é a minha, já que até então eu vinha devorando novamente a série dos Detetives da Noite em busca de indícios que eu pudesse apontar como elementos desapaixonantes. Todo esse tempo falhando consideravelmente, mas agora tenho uma arma inesperada. Tudo bem que não me alegra muito o fato de receber um spoiler tão arrasador como esse, ainda mais de uma fonte tão fidedigna. Um presente dos sonhos, com trocadilho elevado à centésima potência.
“Eu quero fazer isso então”, decido. “Como é que eu faço pra entrar nos sonhos do Hektor Casanova?”
“Axied moc a etneg”, Bóris esfrega as mãos e sorri outra vez com malícia, como quem tem um plano infalível, e se levanta do sofá. Borsana também se retira de sua poltrona.
Os dois fazem sinal para que eu os siga e caminham rumo à mesma cortina de onde Laura Palmer saiu. Finalmente tenho controle das minhas vontades e posso me erguer de minha poltrona, embora esteja um pouco tonto e com muita informação a processar. Antes de eu seguir na direção que Bóris e Borsana tomaram, Laura Palmer faz um sinal com uma das mãos espalmadas para mim. Ela dá a entender que precisa me passar um recado ao pé do ouvido, então me abaixo um pouco. Após escutar suas palavras, só posso dizer que, apesar de falar em português claro e na ordem convencional, me parece algo enigmático. Levanto o corpo, minhas sobrancelhas estão franzidas, mais confuso com o que ela acaba de me contar do que com toda essa situação que estamos vivenciando.
“Na hora certa você vai saber a quem repassar essa mensagem”, ela me deixa totalmente sem pistas.
“Você não vem com a gente?”
“Não. Vou ficar aqui, no meu mundo, torcendo pra que esse plano dê certo”.
“O plano Laura Palmer”, invento um nome na hora.
Ela pisca, aprovando o nome.
“Foi um prazer, senhorita Palmer”.
“Por favor, sr. Agente do Desapaixonamento! Certifique-se de que esse homem me mate. O prazer foi meu”.



Acordo suado, são mais de oito e meia da manhã. Meu Deus! Estou atrasado para ir pra ANNA. O colchão sob minhas costas encharcado de suor. O ar condicionado funcionando normalmente, no entanto eu despertei morrendo de calor. Não me pergunte o porquê, mas minha primeira reação é olhar minhas mãos, meio que pra ter certeza de que eu sou eu e que meu corpo é o meu corpo. Só depois é que faço reconhecimento visual do ambiente ao redor. Sem dúvida, dessa vez é o meu quarto. Posso ouvir pessoas tagarelando ao longe, vulgo meus familiares.
Testo o paladar: um sabor acentuado de cereja, e um pouco mais pro fundo, café. Como pode? Que espécie de sonho foi esse? Eu estava mesmo no sonho de Laura Palmer ou no meu?
E o que aconteceu depois, quando segui os anões para trás daquela cortina? A mim pareceu que naquela mesma ocasião iríamos invadir o sonho de Hektor e plantar a ideia da morte da Laura Palmer. Entretanto, não consigo recordar de um detalhe sequer sobre o desenrolar disso. Será que algo deu errado no meio do caminho?
Aconteça o que acontecer, não posso comentar isso com ninguém. Nem mesmo com Rita Lina, e olha que ela é a pessoa que seguramente me encorajaria a encarar esse tipo de evento com naturalidade.
Depois de uma longa higiene matinal, volto pro quarto, toco no colchão e ele ainda está muito molhado. Vou ter de colocá-lo ao sol, esperando que meus pais não suspeitem que, depois de marmanjo, eu tenha voltado a fazer xixi na cama. Espero que seque antes do Lucas chegar. O sono dessa noite foi tão violento que nem deu pra escutar meu despertador, mesmo ele estando configurado pra tocar seis vezes (eu gosto de me prevenir). E, assim como Bóris deixou bem claro, meu corpo relaxou muito. Mas a cabeça está a mil, especialmente depois de tudo que eu “vivenciei” naquela espécie de sala branca e preta misteriosa.
Quando enfim pego o celular pra verificar, me deparo com uma mensagem de Sávio parecendo preocupado por eu ainda não ter chegado; Rita me mandou um gif de um cachorrinho comendo hot-dog (uma piada interna entre a gente, porque uma vez eu comentei com ela que um cachorro comendo hot-dog seria canibalismo semântico, mas eu nem sequer sei direito se esse tipo de colocação está correta, até mesmo como piada; portanto, não perca tempo tentando entender). E tem uma mensagem de Hektor Casanova, a qual eu abro com o coração mais tenso do que um aluno de 6ª série antes de fazer uma apresentação diante de toda sua turma.

Por favor, se puder, passe aqui. Tenho algo urgente pra te falar. É insano, então se prepare. Posso adicionar um extra ao serviço, mas por favor, preciso muito que você venha aqui ainda hoje.

Me encho de uma coragem improvável e digito uma mensagem para Sávio, informando que precisei comparecer a um compromisso importante envolvendo um cliente, por isso não fui hoje. Não é totalmente uma mentira, então a culpa nem dói.


Chego à casa do meu escritor favorito. Toco a campainha e, com uma impressionante eficiência, Bóris vem me receber. Lanço a ele um olhar e um sorriso a fim de remeter à experiência amistosa do sonho da noite passada, mas o anão não devolve o agrado e se porta estritamente profissional e azedo:
“Bom dia, senhor Denner Corrêa! O senhor Casanova o aguarda em seu escritório”.
Enquanto atravessamos o jardim rumo ao interior da casa, dou uma de teimoso e faço uma nova tentativa de contato com Bóris:
“E aí, Bóris? O plano deu certo? Porque eu não me lembro de nada”.
“O euq ecetnoca son sohnos, acif son sohnos”, sibila ele.
Agora, não consigo entender porcaria nenhuma do que ele diz. Perdi minhas habilidades especiais de tradução simultânea da linguagem reversa, que saco!
Borsana está espanando uma estante na sala, elevada em cima de um banquinho, fingindo não notar minha presença. Desisto de cumprimentá-la. Onde eu estava com a cabeça quando resolvi fazer as pazes com o mundo dos anões? Eles sempre ferirão meus sentimentos, não importa o quanto eu me iluda achando que serão legais comigo.
Antes de bater na porta do escritório, Bóris cochicha em tom de ameaça:
“Cuidado com esses seus pensamentos que saem pela boca”.
Apesar de eu não gostar do tom atrevido com que ele me tratou, preciso admitir que ele tem razão. Se algum pensamento oral escapar, sabe Deus quais seriam as consequências.
“É disso que eu estou falando”, reclama ele, balançando a cabeça negativamente.
O mordomo, então, bate na porta do escritório de Hektor, que abre em menos de três segundos, nitidamente ansioso pela minha chegada.
Já dentro do cômodo, Hektor nos tranca aqui. O laptop está sobre uma escrivaninha, virado para minha direção, aberto numa página em branco do Word.
“E então, Hektor? Estou aqui”, começo, colocando as mãos nos bolsos.
“Ótimo, ótimo, Denner! Fantástico!”, vibra ele, puxando uma cadeira para eu me sentar. “Meu Deus, eu estou tão nervoso, tão nervoso. Olha!”
E me mostra as mãos tremendo.
“Eu tô tentando escrever uma cena desde que acordei, mas as mãos não param de tremer”.
“É mesmo? O que aconteceu?”
“Eu tinha escrito um capítulo ontem e fui dormir às 2 da manhã, mas aí acordei de novo às 5, e daí não consegui mais dormir”.
Tô tentando pensar em patinhos enfileirados marchando numa rodovia, meu método prático para espantar qualquer possibilidade de um pensamento oral vazar.
“Você... você não vai acreditar no que eu vou te dizer. Nossa!”
“Estou ficando meio preocupado, Hektor. Você tá tão tenso!”
Ele pega uma garrafa térmica, provavelmente cheia de café preparado por Borsana, dá uma boa golada, respira fundo e diz:
“Sonhei com você”.
“Hum!”, resmungo, cada vez mais perto de constatar que, sim, a coisa toda aconteceu mesmo. “E o que aconteceu nesse sonho de tão estranho?”
“Bom, eu não me lembro de detalhes em geral, mas o mais importante e mais perturbador de tudo eu definitivamente lembro muito bem”.
Meu Deus, homem, por que você precisa fazer tanto suspense?
Nossa, que desprezível esse meu comportamento egoísta! Se tiver realmente acontecido a inserção da ideia da morte de Laura Palmer, preciso demonstrar um pouco mais de piedade e empatia, porque este homem deve estar com o coração em pedaços.
“Sabe, Denner”, Hektor continua, “eu acordei com essa sensação tão... tão poderosa no meu coração, como se eu precisasse colocar em prática o quanto antes, mas ao mesmo tempo que eu encaro isso como uma missão, eu tô sentindo tanto lamento, sabe? Uma tristeza pesada tomando conta de mim, como se eu estivesse prestes a dar adeus a um grande amigo”.
“Tô tentando entender”.
“Eu sonhei que você resolvia o meu caso, é isso. Quero dizer, essa foi a conclusão que eu tive ao acordar, porque não foi algo tão direto, entendeu? Você chegava na minha casa e dizia que eu não podia continuar apaixonado pela Laura porque ela estava...”
Essa pausa é a coisa mais dramática que ouvirei em dias, quem sabe meses. Estremeço levemente. Estou visualizando nossa empreitada tomando forma e se personificando na figura de Hektor Casanova sendo assolado por uma tristeza insuportável. O semblante dele despenca de tão abatido. Eu sei que se trata disso porque sei qual é a próxima palavra que termina a frase, a palavra maldita.
“... morta”, despeja ele, por fim.
“Caraca! Morta?”, emprego a falsa surpresa, uma atuação deplorável.
“Sim, Denner. Só que isso no sonho parecia tão verdadeiro. E você me dizia que foi bom eu ter matado a personagem no volume 9 da série, porque ela tinha morrido como uma personagem que cumpriu uma missão relevante pro universo da história, e que eu tinha de seguir em frente e isso seria bom pra mim e pra eu esquecê-la. E eu acordei completamente perturbado, com essa ideia fixa. E então eu entendi o significado do sonho: pra eu me desapaixonar da Laura, eu preciso sacrificá-la. Você ter aparecido no sonho foi um sinal claro de que é isso que eu tenho que fazer. Sério, Denner, foi como se você realmente tivesse estado lá. Geralmente os sonhos não fazem o menor sentido, mas dessa vez foi tão realista, tão racional. Nunca tive um sonho tão claro quanto esse”.
“Nossa!”, a garganta vai ficando seca.
“Eu disse que era insano”.
“Bastante”, concordo. “Então, você pretende fazer alguma coisa a respeito?”, me esforço pra não gaguejar. E pra manter os patinhos na rodovia.
Ele assente com a cabeça. Os olhos se enchendo de água.
“Eu já fiz um esboço e... Estou pronto!”
“Pronto pra...?”
“Pra escrever o capítulo em que ela morre”.
“Então você vai mesmo... matar a Laura?”, pergunto tão baixinho e com tanto medo que pareço o Denner da infância, que tinha medo de tudo e de todos.
Hektor respira fundo e, mais uma vez, confirma com a cabeça.
“Foi de um jeito muito louco que aconteceu, mas você me ajudou, Denner. Você surgiu no meu sonho e trouxe a solução pro meu caso. Então eu confio que vai dar certo”.
“Nem sei o que dizer”.
“Não precisa dizer nada”, Hektor puxa uma cadeira para si, coloca-a de frente para o laptop e, apontando para o objeto, me diz: “Eu te chamei aqui porque eu quero que você testemunhe. Como um leitor fiel e fã do meu trabalho, e além de tudo, como um colega escritor, eu quero que você seja a testemunha desse momento tão importante pra minha carreira literária”.
Estou tão nervoso. É óbvio que aceito de imediato; enquanto me sinto aos poucos mergulhar nesse momento que parece ser tão íntimo e pessoal para um escritor, estou desfrutando de tal honra. E controlando cada vão pensamento que cruza minha mente, com todo o cuidado para não estragar tudo. Meu Deus!! Eu realmente consegui implantar a ideia. Eu realmente consegui.
Hektor passeia com os dedos pela tecla como um hábil mestre da escrita. Fico imaginando se, junto com a ideia, eu também lhe passei dicas de como escrever essa fatídica cena. Mas realizo o tamanho da minha presunção e me recolho à simples tarefa de espectador. Porém, não deixo de saborear o fato de fazer parte dos dois lados da história: sou aquele que participou do plano da morte de Laura Palmer e o mesmo que acompanhou em primeira mão o processo de “assassinato”. Essa bizarrice é de proporções tão descomunais, que volta e meia me pego pensando se na verdade eu não fiquei preso no mundo dos sonhos.
Hektor está chorando. As lágrimas fluem com uma sofreguidão que deixam a minha  alma moída, mas os dedos dele não param, tão absorto ele está em executar esse que deve ser seu maior ato de coragem. Faço a decência de me levantar da cadeira e paro ao seu lado, tocando em seu ombro, como um amigo da família que consola alguém num funeral, à beira da despedida final de seu ente mais querido.
Hektor chora e chora como uma represa arrebentando para inundar uma cidade em minutos, causando uma grande catástrofe. Soluçando e gemendo igual a uma criança que se perdeu dos pais no meio da multidão. Ele está matando sua protagonista. Ele está livrando ela do fardo de ser uma personagem que precisa carregar o peso de um best-seller nas costas. Ele está sendo livre de estar fisgado numa paixão ilógica e irracional, rompendo um laço afetivo que não é incomum entre escritores e personagens; a diferença aqui é que Hektor ultrapassou os limites do impossível, assim como eu, quando invadi sua mente despreparada e o convenci de que isto era o necessário a ser feito. Mesmo que essa parte da história tenha sido apagada da minha memória.
E Hektor digita o ponto final do capítulo. Laura Palmer está morta.
“Está feito”, murmura ele, jogando pra trás os longos cabelos.
E volta a chorar, afundando o rosto entre as mãos, inconsolável. Sinto pena, sinto compaixão, sinto mais tristeza. E um pouco de remorso, pra ser bem sincero. Ninguém gosta de ser o responsável por um término ou uma perda, por mais que seja necessário.
Ainda com o rosto em prantos, só que em menor grau, ele olha para mim e diz:
“Obrigado, Denner”.


Bóris me acompanha até o portão quando vou embora. Insisti para Hektor ir descansar e deixar que o mordomo ficasse com essa parte de ir comigo até a saída. Mas na verdade foi uma estratégia para ficar a sós com o anão.
“Acho que eu mereço uma explicação, não é, Bóris?”
“Explicação sobre o que, senhor?”
“Cara, você não precisa ficar fingindo. O Hektor nem tá por perto. Dá pra parar com isso e conversar comigo sem fugir?”
Ele ergue as sobrancelhas, mas não diz palavra. Encaro como uma deixa para que eu prossiga, então vou direto ao ponto:
“Como é que vocês fazem isso? Como é que vocês conseguem passear nos sonhos das pessoas e fazer todas essas coisas, sei lá, sobrenaturais? Quem são vocês?”
Bóris me encara. Me analisa. Busca alguma coisa no meu rosto, no meu olhar. E então dá aquele sorriso malicioso que eu tanto odeio.
“Uma vez eu lhe disse que o senhor não sabia do que nossas tortas de cereja são capazes, senhor Denner”.
O tom como ele emprega e articula as palavras não deixa dúvidas de que está falando sério, apesar da droga do sorrisinho.
“Torta de cereja?!”
“Torta de cereja com café. Algumas coisas são agradáveis delícias de outro mundo, não acha? Passar bem, senhor Denner!”
E nem me espera reagir, simplesmente bate o portão na minha cara. Torta de cereja com café?? Então é esse o grande segredo?! Que explicação mais furada!!
Tomo o meu rumo, mas não vou para a sede da ANNA hoje. Como alguém que está aprendendo a omitir informações e tirando vantagem disso, decido que vou sair em busca de alguma atividade para relaxar a mente e desviar o foco para outras questões, antes que esse mundo me engula com esse tanto de loucuras que vêm pra cima de mim.
No entanto, não deixo de pensar no quanto seria proveitoso se eu pudesse desenvolver a prática de entrar nos sonhos das pessoas. Pedro e Olívia seriam as vítimas no topo da minha lista. Mas a vida não é tão fácil nem tão doce quanto uma torta de cereja, não importa o quanto eu deteste a veemente ironia nisso.


23 de outubro de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x10: UNI, DUNI, TÊ



(Sávio)


Os dias têm sido exaustivamente repetitivos. Termino o que tenho de terminar na ANNA, sempre por volta das 8 da noite, dispenso Madonna e eu mesmo tranco tudo. Quase sempre Denner e eu saímos juntos, mas hoje ele está de folga. Aproveitou a ocasião para ir a uma degustação de geleias exóticas com Rita Lina. Na hora que ele me falou desse programão, a vontade de julgá-lo foi quase irresistível, mas a pontada de inveja foi mais forte (mesmo ele tendo frisado que estava curiosíssimo por provar a geleia de camarão rosa com banana-da-terra, o que liquidaria qualquer inveja na hora). Tirando o fato de Denner estar presente ou ausente, quase nada varia. Será que essa sensação de tédio constante faz parte da tal crise dos 30? Provavelmente.
Parece que nada mais empolga, nada mais emociona. Quando a gente chega aos 30 e começa a trilhar essa nova faixa etária, ainda sentimos necessidade de ter algo que nos faça sentir vivos, de que algo aconteça. Ainda é possível ter a vivacidade de quem está ingressando nos 20. Além do mais, é sempre bom ter uma novidade, algo que balance o seu mundo e te dê uma razão para pensar na vida, e que até mesmo te dê um tantinho de trabalho e preocupação.
Até mesmo os casos da ANNA têm sido como uma reprise vespertina chata de alguma novela na TV. Preferiria que fosse como as reprises do Chaves, em que mesmo sabendo que o Seu Madruga vai levar um tabefe injusto da Dona Florinda, ainda assim é divertido.
Entro no carro e reconsidero a possibilidade de dar uma passada na tal degustação de geleias exóticas. Enfio a chave na ignição, ligo o carro e começo a rir por chegar tão ao fundo do poço assim. Desculpa, Denner, mas não é hoje que vou me entregar a esses tipos de prazeres. Sei que pra algumas pessoas eu pareceria estranho por colecionar funko pops de personagens de filmes e séries ou por saber de cor e na sequência correta os nomes dos primeiros 150 pokémon já criados, porém existe uma coisinha chamada limite, não é mesmo?
Se Anna e eu ainda estivéssemos juntos, certamente eu dirigiria até seu apartamento e lá a gente comeria algo gostoso, conversaria e terminaríamos debaixo das cobertas. Mesmo soando repetitivo, as variáveis durante esses encontros sempre faziam uma grande diferença. Não que eu esteja me lamentando pelo rompimento, pois no fundo eu já vinha querendo isso. Mas também não vou mentir que não curtia essa rotina.
Estou bem sem esse relacionamento. Não voltaria para a Anna só porque tô sentindo falta de alguma coisa. Até porque, como eu disse, tô ansiando por novidades. Talvez a expectativa por uma novidade te roube um pouco a surpresa do que pode acontecer, já que de certa maneira você já está no aguardo por algo. A graça das surpresas está no fato de você não esperar por elas.
E quanto a Mile?
Depois de ter ido confrontar o Ivan, como me disse que faria, nos falamos pouquíssimo (três vezes, pra ser exato... e sim, eu contei, e numa delas foi só um “oi” no whatsapp, ao que ela respondeu com um emoji de carinha sorrindo). E isso já tem uns bons quinze dias. Tô preocupado com ela. Mas depois que passamos por aquele furacão em nossa amizade, e depois de vê-la colocando abaixo a sala dos desafios no prédio da Aurora, passei a compreender que preciso deixar Milena ter seu tempo pra cuidar da própria vida; dar a ela uma solidão necessária pra se reconstruir.
Ou pode ser que eu esteja errado e minha amiga esteja precisando de companhia, vai saber... Homens nunca sabem direito dessas coisas. Bom, Ivan saberia, porque ele é expert em estar disponível quando uma mulher precisa dele. Pena que usasse essas habilidades a serviço do diabo.
Para ser bem honesto, eu gostaria que a Milena voltasse pra ANNA. Algo aqui dentro me diz pra esperar até poder fazer esse convite a ela.  A tal história de dar um tempo a ela para lidar com os últimos acontecimentos.
É tanto devaneio nessa cabeça que, quando mal me dou conta, já chego em casa.


Abro a porta e, para meu espanto, tem um loiro sem camisa deitadão de boa no sofá. Mas quem é esse folgado?
“Ah! E aí, Sávio?”, o loiro se vira e me cumprimenta, e eu congelo olhando pra ele por uns longos cinco segundos, até meu cérebro me fazer entender que esse é o Dominique!!
“Que negócio é esse? Cadê os seus cabelos?”
“Gostou? Novo visual!”, ele se ajeita no sofá, passando a mão na cabeça, que agora está com uma merda de um corte normal de homem.
“Não, não gostei nada disso”, sou categórico, e falo sério. “Você é idiota ou o quê? Cortou o cabelo?! Mas por quê? Ah, não acredito nisso. É coisa da mamãe, né? Oh, mãe!”
Dessa vez dona Lola foi longe demais na implicância com as madeixas do garoto. Não se faz uma maldade dessas. Mamãe surge de algum lugar da casa, só de camisola, aturdida com meus gritos.
“Por que a senhora fez isso?”, questiono, apontando para Dominique como se ele fosse uma falha grave no sistema da realidade.
“Eu não fiz nada”, defende-se ela, limpando os óculos no pano da camisola. “Mas Deus ouviu minhas orações. Já nem tô mais sentindo vergonha dele. Inclusive, Dominique, pode voltar a me marcar nas suas postagens do Face, meu filho”.
“Não foi a mamãe que obrigou nada”, explica ele, com um sorriso cínico. “Foi a Bianca que pediu, como uma prova de amor, sabe? Cada um pediu uma coisa pro outro”.
“Mas, cara”, teimo, “os seus cabelos são a sua marca. Ou melhor, eram, né? Você era tipo Sansão ou algo assim. Eram cabelos tão bonitos. Pra mim, perdeu totalmente a identidade. Eu ia sugerir comprar uma peruca, mas ia ficar pior que amador tentando fazer cosplay.
“Ah, tá, muito engraçado”, retruca Dominique. “Você só tá assim porque não vai mais poder me encher o saco me chamando de ‘Rapunzel’ e outras besteiras”.
“Mas é claro! Por que mais eu estaria assim? Olha, eu espero que você tenha pedido algo de valor equivalente pra essa Bianca, hein! Tem que ser no mínimo pra ela cortar um dedo fora ou ficar cega de um olho”.
“Hum”, resmunga ele, “dá pra notar que você é mesmo o irmão mais velho. Teve mais tempo nesse mundo pra desenvolver a sua estupidez, né? Não foi só um pedido de namorados. E a prova de amor que eu falei não é o meu amor por ela ou o dela por mim. A gente resolveu ajudar outras pessoas. Eu cortei o cabelo pra doar pra uma garota da igreja que tá com câncer, vão fazer uma peruca pra ela. E a Bianca vai doar um monte de roupas pra uma outra moça que perdeu tudo num incêndio, incluindo muitas roupas novas. Entendeu? Prova de amor. O que aconteceu é que a Bianca e eu estávamos querendo fazer alguma coisa legal e cada um escolheu o que o outro devia fazer. Você devia tentar fazer coisas boas pelas pessoas de vez em quando”.
“Uau!”, sinto o impacto. Não estava esperando por nada disso. E eu apenas fico parado aqui, encarando minha mãe e meu irmão, me sentindo um otário. Um pouquinho ofendido pelo que ele falou, não vou negar; afinal, se um trabalho como o meu não for considerado um ato de amor ao próximo, então não sei mais o que é.
Me aproximo de Dominique e o envolvo com um abraço, que ele permite com certa relutância.
“Cara, isso é muito bonito da sua parte”, admito. “Eu já tava até pensando em violar uma das regras da ANNA e fazer um serviço de desapaixonamento pra você. Tô até me sentindo mal agora. Mas, olha, parabéns pelo gesto!”
“Valeu! E, na verdade, eu gostei do corte. Vou até deixar a barba crescer pra ver se fica uma combinação legal”.
“Só não deixa ficar ridícula igual a barba do Sávio”, mamãe comenta.
“Mãe, não quebra o clima de broderagem aqui, por favor”, repreendo.
E todos rimos. Essa é a minha família. Uma das únicas coisas repetidas e manjadas que ainda me fazem sentir bem nesse mundo. Dona Lola é o meu maior orgulho, a mãe mais corajosa e dedicada que eu poderia querer. Às vezes paro pra pensar no fato de que nosso pai não fez tanta falta, na prática. Apesar das vezes em que eu me senti excluído de grupos de amigos por não ter tido a oportunidade de vivenciar coisas de pai e filho ou de até hoje ter referências falhas de relacionamentos parentais.
Por fim, olho meu irmão bem dentro dos olhos e declaro, do fundo do meu ser emocionado:
“Fique sabendo, mano, que aqui no meu coração, não importa se você corta o cabelo ou deixa a barba crescer. Aqui, aqui nesse coração duro e cheio de falhas, você sempre será a minha Rapunzel das trancinhas de mel”.
E o bom e velho Dominique irritadinho ressurge, me fazendo ganhar a noite.


Acordo às sete e meia pronto para um dia novinho em folha. “Novinho” é só maneira de dizer, porque já sou capaz de prever todos os pontos básicos. Chego à agência, encho uma caneca de café e vou para minha sala esperar pela cliente nova, Aretha Marques. Num contato preliminar, ela me adiantou que quer os serviços da ANNA porque “precisa se livrar dessa paixão absurda e inegavelmente sem futuro”, segundo suas palavras. Aretha alimenta uma paixão pelo ex-chefe há cerca de um ano. O mais “engraçado”, se é que posso chamar assim, é que nem o fato de ele tê-la mandado embora do emprego serviu como motivo para ela se desapaixonar.
E, como eu estou topando desafios, vamos nessa.
Aretha entra, após ser anunciada por Madonna, com seu corpo enfiado num moletom azul desses que têm estampado o nome de alguma universidade americana. Sorrindo como se estivesse entrando no camarim de seu ídolo musical, ela é um pouco rechonchuda, altura média, cabelos marrons em cachos que caem até um pouco abaixo dos ombros.
“Bom dia, srta. Marques! Pode ficar à vontade, sente-se, por favor!”, eu não largo as formalidades.
“Bom dia nada! O dia está excelente, está lindo, está formidável, meu querido!”, ela esbanja alegria e por um segundo parece que rasgaram a parede e toneladas de raios de sol penetraram o ambiente. E eu tô falando daquele solzinho com óculos escuros e bochechas rosadas. Pois é, tive de recorrer a essa metáfora exagerada para dar uma ideia mínima da sensação.
Seu aperto de mão é tão firme e confiante que me dá até constrangimento não estar na mesma vibe que ela. Você já se sentiu assim, tão inconveniente perto de pessoas que estão num humor bem distinto ao seu?
E, quando percebo, estou sorrindo não apenas por cortesia de prestador de serviço, mas porque eu quero sorrir.
“Que bom que a senhorita está tão... animada, tendo em vista que estamos aqui para tratar de assuntos complicados”.
“Ah, tudo bem! Essas coisas não me abalam. Complicações são parte da vida e a gente tem que saber tirar proveito delas”.
“Certo...”
Gostaria de saber explicar por que esse tipo de gente tão otimista parece tão irritante... Não que seja ruim, não é isso. Esse desconforto deve ser algum resquício da minha fase gótica. Odiava quando alguém tentava cortar minha bad e, pior, quando conseguia. Tudo que eu queria era curtir minha trevosidade e emanar tristeza por onde quer que passasse, então pessoas com esse espírito de “vai-dar-tudo-certo” geralmente eram as primeiras com quem eu evitava contato.
“E então, o que você achou do meu caso?”
“Achei interessante. E intrigante, é claro. Não consigo entender como a senhorita continua apaixonada pela mesma pessoa que lhe tirou o emprego”.
Aretha dá de ombros, mas sustentando o sorrisão.
“Eu exagerei, pra ser sincera. Depois de ter aguentado um ano de paixão secreta e proibida, eu tive a coragem de me declarar pra ele no escritório do parque e tasquei um beijão nele. Foi por isso que ele me despediu. Justa causa.”
Abro a boca, surpreso. Essa parte não tava no formulário, mas tudo bem. Pelo menos agora a situação está mais clara. Se a Madonna resolvesse me roubar um beijo, eu definitivamente teria de mandá-la embora pela audácia. Mas será que isso não tem mais a ver com o fato de eu não achar Madonna atraente? E se ela fosse atraente? Hum, isso soa bem machista... Começo a refletir que eu nunca ouvi falar de Madonna ter um namorado ou namorada ou sequer um crush. Meu Deus, tô concluindo aqui o quanto a vida da minha secretária não me causa o menor interesse... E pior: mesmo depois de ponderar a respeito, sei que ainda vou continuar desinteressado.
“A senhorita achou que ele fosse corresponder e por isso arriscou?”
“Digamos que sim. Mas é que desde que eu adotei uma postura de positividade pra minha vida, eu tenho tido mais coragem e determinação nas minhas decisões. Eu sabia que podia dar errado, mas fui lá e fiz. Perdi o emprego, mas valeu a pena. Pelo menos esse arrependimento eu não vou carregar”.
“Se a senhorita é tão... positiva, por que se desapaixonar? Quero dizer, por que contratar a nossa empresa pra isso, em vez de esperar o tempo passar e a paixão acabar sozinha?”
“Ah, mas é justamente por ser positiva que eu preciso seguir em frente. Eu não posso contar que o tempo vá fazer alguma coisa por mim. Se eu puder fazer antes, melhor ainda. Seguir em frente faz parte de ser uma pessoa como eu. Por que eu iria querer esperar essa paixão terminar sozinha se eu posso pagar pra vocês fazerem isso pra mim? Eu tenho uma vida pra viver, e a vida acontece hoje, meu bem”.
“Entendi...”
Reparo numa informação no formulário dela e ressalto:
“O que exatamente a senhorita fazia no parque Divertix?”
“Eu era a palhacinha Lulu”.
“Faz sentido...”, deixo escapar, mas emendo: “digo, não que a senhorita lembre uma palhaça, mas é que... hã... acho que é bom pra um palhaço ter um comportamento tão empolgado assim, né? Quero dizer, até o seu jeito de falar é meio teatral, meio performático... Tipo, não tô dizendo que a senhora tá atuando ou exagerando no jeito de se comunicar... ou... mentindo, sabe... é que...”
Ela dá uma risada contagiante. Tão contagiante que me leva junto e compartilhamos uma boa gargalhada por dez segundos. Ainda bem que ela explodiu desse jeito, porque eu já tava morrendo de tanto querer me explicar e falhar que nem um imbecil.
“Ai, ai... Você tá todo enrolado”, diz ela. “Mas eu entendi o que você quis dizer. E, sim, eu adorava fazer a palhacinha Lulu. Nossa, era um prazer enorme. Já imaginou? Proporcionar tanta alegria pra criançada, carregar a molecadinha nas costas, fazer eles rirem pelo simples fato de você saber imitar algum animal? Quer ouvir a minha imitação de porco? Ou você prefere cachorrinhos pequineses?”
“Bem, eu... É... Melhor deixar pra uma outra hora, mas tenho certeza que a senhorita arrasa”.
“Obrigada! Eu arraso mesmo, modéstia à parte”.
Fico assentindo com a cabeça, segurando a agonia só de imaginar a pirralhada correndo desvairada e berrando no meu ouvido; moleques e molecas sujos, descabelados, fedendo a suor, peido e salgadinho de queijo, tudo misturado e com direito àquela trilha sonora chatinha e grudenta que ressoa por esse tipo de ambiente em que Aretha trabalhava. Imagino a gurizada me odiando porque tô fazendo eles descobrirem que palhaços são o suprassumo da encheção de saco, e que tudo que eles mais querem é dar um chute bem no meio das minhas bolas ou me atirar da parte mais alta da roda gigante. Todo mundo já teve um desejo secreto envolvendo palhaços e alguma forma de “acidente”. Com eles, claro. Certo? Não há positividade que resista a todo esse cenário imaginado, não em mim.
“Eu nunca perdia a compostura e me mantinha profissional o tempo todo”, continua Aretha, “mesmo na vez em que dois garotos me deram uns chutes bem fortes nas duas pernas. Mas o sorriso e a empolgação estavam lá, inabalados. Positividade!”
Essa mulher diante de mim é um ser humano raro. Seu coração está realmente convencido de que a vida é bela e que o mundo é um doce recheado de hakuna matata. Se eu fosse sacana, meteria a faca e cobraria um preço abusivo, pois esta senhorita claramente é do tipo fácil de enganar. Mas sacana eu não sou, pois pra isso eu teria de me chamar Ivan Castro.
“A senhorita nunca presenciou ou soube de algo que pudesse comprometer seus sentimentos pelo seu ex-patrão? Como é mesmo o nome dele?”
“O nome dele é Bento Mathias. Ele começou a trabalhar com crianças em 1998, quando tinha os seus 20 anos, alegrando as criancinhas da comunidade onde morava. Ele se vestia de palhaço, de Mickey, de Donald, de homem-aranha, de Batman... E com o tempo descobriu que tinha veia de empreendedor e...”
Ótimo. Perguntei um nome e ganhei a biografia do cara que fundou a Carreta Furacão.
“O Divertix é um park buffet, com um espaço amplo e com várias atrações e brinquedos pra toda a família. Por apenas 35 reais a hora, você tem direito a um saquinho médio de pipoca e um copo de refrigerante de 300 ml de sua livre escolha, além de poder aproveitar qualquer brinquedo do parque. E tem wi-fi grátis pros pais usarem enquanto os filhos têm diversão garantida. Sem falar na equipe de funcionários prontos para melhor atendê-lo”.
“Fascinante!”, respondo com meu melhor sorriso, mas um pouco incomodado com essa linguagem decorada de propaganda. “Dá pra notar que a senhorita ainda tem uma verdadeira paixão por esse lugar, hein! Tem certeza que não tá precisando se desapaixonar do Divertix em vez do Bento?”
Aretha dá uma risadinha tímida, encolhendo os ombros como se quisesse dizer “o que se pode fazer?”.
“Mas a senhorita não me respondeu uma coisa que eu perguntei”, digo. “A senhorita nunca presenciou ou soube de algo que pudesse comprometer os seus sentimentos pelo Sr. Mathias? A meu ver, o fato dele ter lhe despedido já seria suficiente, mesmo que tenha sido por conta da sua atitude ousada, mas eu não quero lhe influenciar na sua resposta”.
“Entendo”, diz ela, colocando o indicador e o polegar no queixo e olhando para cima, tentando se recordar de algo. “Sinceramente, não me lembro de nada assim. O Seu Mathias sempre foi um homem generoso e muito correto. Ao fim de cada dia de trabalho, ele sempre reunia os funcionários e nos parabenizava pelas nossas performances. Sempre contava a sua linda história de vida, de como um dia teve de voltar pra casa no último ônibus da noite, ainda fantasiado de Pica-pau, e que naquela ocasião teve vontade de desistir, mas não desistiu. E que bastava olharmos ao nosso redor e ver a que ponto o seu sonho havia chegado”.
“Ele literalmente contava essa história ao fim de cada dia de trabalho?”, pergunto, disfarçando meu horror.
“Sim. E a cada vez era mais emocionante e mais inspirador”.
“Imagino. Deve ter sido uma barra tentar ganhar a vida com entretenimento infantil”.
“O Pica-Pau é o único personagem que o Sr. Mathias não permite no parque. Ele pegou trauma dessa noite no ônibus, porque foi assaltado e os bandidos bateram nele com a cabeça da própria fantasia, enquanto imitavam aquela gargalhada famosa, sabe? Se ele sequer ouvir o barulho daquela gargalhada do Pica-pau, é capaz de surtar. Mas, mesmo assim, não é o bastante pra me desapaixonar. Tá vendo só? Vai ser um grande desafio!”
“Olha, srta. Marques, não vou mentir”, solto um suspiro. “Vou precisar pensar bastante antes de tomar qualquer atitude pra cuidar do seu caso”.
“Mas eu sei que o senhor vai conseguir”, vibra ela. “Sabe por quê?”
Eu a encaro, esperando a resposta, embora eu tenha uma vaga ideia do que ela vai dizer. E então ela diz:
“Positividade!”
Sabia.


Passei a noite anterior inteira buscando uma estratégia de como cuidar do caso de Aretha. E tive de me contentar com a única opção que pareceu a mais razoável (apesar de ser a que eu mais temia).
Estaciono numa avenida próximo ao Divertix e, a poucos metros, já dá pra escutar a musiquinha xarope do Patati e Patatá, ecoando de uma caixa de som cuidadosamente posta do lado de fora. Não deu para estacionar mais perto porque parece que hoje o lugar está lotado e muitos pais decidiram trazer suas crianças no mesmo dia em que eu vim tentar fazer algo pela minha missão. Esse mar de gente já tá me dando coceira...
“Senhor, livrai-me de tropeçar numa criança e que eu não sinta vontade de beliscar nenhuma delas, amém!”, sussurro, indo em direção à entrada.
Existe uma longa fila de adultos e crianças, ambas as gerações parecendo aborrecidas com alguma coisa. Pelas caras, a maior parte dos fedelhos tem no máximo uns oito anos. É assim mesmo: quando vai se aproximando dos 10, ninguém mais quer ser criança. Ou, pelo menos, parecer criança. Me lembro da minha mãe querendo me obrigar a usar cuecas do Cebolinha nessa idade, e eu morto de medo que algum dos meus amiguinhos descobrisse aquilo. Mas consegui, com uma boa birra e batendo os pés solenemente, fazê-la comprar cuecas normais, isto é, com estampas do Dragon Ball ou dos heróis da Marvel. Afinal, eu tava virando um homenzinho e queria ser respeitado... Ok, a minha birra foi muito bem recompensada com uma surra inesquecível antes de obter o que eu queria, e mamãe repetindo por mais de um mês que tinha gastado dinheiro com as cuecas do Cebolinha e tal― falatório que, na verdade, doeu mais do que a surra―, mas o que importou foi que eu me impus.
“Seja bem-vindo ao parque Divertix, lugar de criança feliz!”, uma voz vinda de trás me assusta, cuspindo esse textinho decorado com precisão automática.
É só alguém fantasiado de Peppa Pig (o que não deixa de ser meio medonho), com a voz abafada pelo traje. Um dos olhos está mal costurado, deixando a coisa ainda mais grotesca.
Apenas assinto com a cabeça, e a Peppa agora se põe na minha frente, me encarando. Quero dizer, a cara da personagem tá olhando pra mim, então não dá pra dizer se o pobre infeliz dentro da fantasia tá ciente de que tá atrapalhando meu caminho.
“Sávio! O que tá fazendo aqui?”
Caraca, a pessoa me conhece?
“Sou eu, a Rita Lina!”, explica a pessoa. Por que estou surpreso? “Vem cá, me dá um abraço, meu amigo!”
O abraço sai todo desajeitado, por causa do focinho da porquinha.
“Quer dizer que agora você tá trabalhando aqui, hein...”
“Sim, sim. Depois daquele período vendendo algodão doce, descobri que amo crianças”.
“Sério?”
“No começo foi meio estranho”, descreve ela, abrindo os braços da Peppa, “porque éramos duas pessoas dentro de uma fantasia de My Little Pony, e eu ficava com a parte traseira, sabe... Mas depois fui promovida a usar uma fantasia solo e agora tá tudo belezinha”.
“Uau!”, finjo interesse, mas me dou conta de que Rita pode ser muito útil no caso. “Rita, será que você pode tirar pelo menos a parte da cabeça da fantasia, pra gente conversar?”
“Sinto muito, Sávio”, sua voz sai como se viesse das profundezas de um sonho longínquo. “Quando vestimos as fantasias, não podemos tirá-las, a menos que seja caso de vida ou morte. Se não for nada disso, nossa comunicação vai ter que ser assim como estamos falando agora”.
“Você não se sente agoniada? Não tá, tipo, morrendo de calor aí dentro?
“Ah, eu tô suando que nem uma porca aqui dentro, é verdade e... Peraí! Você ouviu o que eu disse?”
Rita para subitamente de falar pra ficar rindo de si mesma, por notar que acabou de fazer um trocadilho sem querer. Suando que nem uma porca. Parabéns, que brilhante!
“É o seguinte”, eu começo, depois que ela finalmente se recupera, “eu estou num caso pra agência e minha cliente está apaixonada pelo dono desse lugar. Você acha que eu poderia falar com ele agora?”
“Com o Sr. Mathias? Pode ser, ele deve estar no escritório dele. Mas deve estar bem ocupado. Hoje é dia de autógrafos no parque”, explica Rita.
Olho em volta, finalmente compreendendo o porquê de estar tão apinhado. Quem será que está aqui? Minha pergunta é respondida ao bater os olhos numa garotinha loirinha e vesguinha de olhos azuis, abraçada a uma das pernas de sua provável mãe; a garota está usando uma camiseta gigante estampada com a foto de um garoto de aproximadamente doze anos, cujo nome escrito numa imitação da caligrafia original diz “Lucas Corrêa”.
“Esse Lucas Corrêa não é o irmão caçula do Denner? O que é estrela mirim?”, indago.
“Ele mesmo. Todas essas crianças são inscritas no canal que ele tem no Youtube, e vieram aqui pra pegar autógrafo e tirar foto. ‘Uma tarde no parque com Lucas Corrêa’, é o nome do evento”.
“Pelo visto hoje não é um bom dia pra ter vindo aqui”, comento, tentado pela ideia de dar no pé e voltar num dia menos movimentado. Ou, quem sabe, nem voltar. Agora que sei que Rita trabalha aqui, posso tentar marcar de encontrá-la em algum local e sondar informações sobre o Bento Mathias.
“PEPPA PIG!!!!”, um berro estridente de um garotinho de uns cinco anos ecoa ao redor, fazendo todo mundo se voltar para nossa direção. “MANHÊÊÊÊ!!! EU QUERO TIRAR FOTO COM A PEPPAAAAA!!! MANHÊÊÊÊÊ!!!!!”
“O dever me chama, Sávio”, conforma-se Rita, ao perceber que a mãe vai atender o moleque prontamente. “Boa sorte!”
Sozinho e sem direção, decido que vou dar um jeito de resolver essa situação hoje mesmo.


O Divertix é bem a cara do século XXI e sua parafernália é toda pensada na infância atual. Logo que entro no parque propriamente dito, avisto um painel desses onde as pessoas tiram foto, repleto de símbolos que remetem à era digital e às redes sociais, cheias de plaquinhas com frases da moda, tipo “eu curti isso”, “deixei meu like pra esse parque” ou “pisa menos, Divertix!”. Essa última me pareceu meio fora de contexto para o segmento infantil, mas eu não sei direito que tipo de vocabulário a criançada anda usando, então me mantenho em frente.
Há umas três piscinas de bolinhas de tamanhos diferentes, parede de escalada, máquinas de videogame, carrossel, roda gigante, carrinhos bate-bate, karaokê, plataforma para Just Dance, uma área de lanches, e outros brinquedos que eu não tenho a menor ideia de como funcionam e como se chamam. E tem pessoas fantasiadas de tudo quanto é personagem, além de muitos, uma quantidade infindável de palhaços passeando ao longo do lugar. Dá pra ver o quanto essa galera tá realmente precisando desse trampo, porque se portam com a mesma positividade peculiar que Aretha demonstrou ontem. Eles pulam, riem, falam alto... Enfim, ignoram com maestria o fato de que aqui é uma zona incontestável de estresse. Como será a vida de um palhaço ao chegar em casa após “um dia divertido e cheio de muitas brincadeiras eletrizantes?”
Lucas, o irmão mais novo de Denner, está sentado atrás de uma mesa próximo a uma das piscinas de bolinhas. Sobre a mesa, várias bugigangas estampadas com a imagem do garoto. Tem canecas, estojos, cadernos... Estranho é não ter um livro, mas isso provavelmente é questão de tempo. Não deixo de me impressionar, de fato criaram uma marca evidentemente vendável com ele. A mulher de pé ao seu lado faz as vezes de “secretária”, agindo como uma espécie de intermediadora entre ele e seus fãs. Pelos relatos de Denner, essa deve ser a irmã mais velha, Glenda, a quem meu funcionário acusa de se dar bem às custas do menino-celebridade da família.
“Minha senhora, não podemos fazer desconto”, Glenda explica pacientemente a uma mãe cujo filho está tendo dificuldade em segurar o algodão doce e um sacão de pipoca. Reparando melhor, o filho da mulher está parecendo uma cópia de Lucas. “Para aparecerem três pessoas na foto com o Lucas, é um preço diferente. Vai ter de deixar apenas o seu filho com ele, se quiser pagar apenas os 50 reais”.
“Ah, é uma pena, uma pena mesmo”, lamenta a mãe, fazendo bico, porque claramente ela também queria sair na foto. “Mas tudo bem. O Pietro ganhou o concurso de melhor imitação do Lucas na escola. Agora ele só quer andar por aí igual ao ídolo. Pietro tá realizando um sonho”.
Basta uma rápida analisada no look do pequeno Pietro para notar que sua mãe o veste e penteia semelhantemente a Lucas, como se projetasse no próprio filho uma imagem de criança ideal. A julgar pela concentração de Pietro com suas guloseimas, eu diria que ele tá pouco se lixando pro Lucas, mas mãe é mãe, né? Em toda época das nossas vidas elas têm um plano ideal pra gente seguir, de pequenos Lucas na infância a futuros médicos na juventude. Se bem que a minha mãe nunca abriu a boca para dizer que sonhava em me ver nessa ou naquela profissão. Ela era categórica ao afirmar que eu só tinha que dar um jeito de não virar um vagabundo que só dorme e come. Uma vez eu brinquei com ela e disse “ah, é? E se eu virasse um garoto de programa?”, ao que ela respondeu, sem pestanejar: “cuide bem do corpo e não cobre muito barato”.
“Será que dá pra andar logo com isso?”, berra um pai nervosinho de algum lugar da fila, ganhando o apoio de outros pais igualmente impacientes.
Lucas se levanta de sua cadeira e se posiciona ao lado de Pietro, que ameaça abrir um berreiro se tomarem seu saco de pipocas e seu algodão doce por causa da maldita foto. O resultado é risível: Lucas sorrindo para a lente como um verdadeiro profissional, enquanto Pietro franze a testa e não move um músculo da face para sorrir, com os ombros caídos, totalmente indiferente. Os punhos fechados segurando firmemente o saco de pipoca e o algodão doce. É, já posso dizer que atingi um grau de diversão que eu nem sonhei que fosse ter hoje.
Avançando um pouco mais no ambiente, noto que há também um pequeno palco onde cinco pessoas fantasiadas de Mônica estão se preparando para tocar. Isso mesmo, a famosíssima dentuça, baixinha e gorducha dos quadrinhos. Só que o que temos aqui é uma banda musical e, a julgar pelos instrumentos e a postura dos integrantes, estranhamente acredito se tratar de uma banda de rock especialmente para crianças. Curioso e interessante.
“Boa tarde, criançada!”, uma das Mônicas se adianta ao microfone, a voz rouca e grave denunciando se tratar de um homem por baixo da fantasia, muito provavelmente um fumante habitual. “E pra animar mais um dia maravilhoso no Divertix, nós vamos cantar pra vocês. Nós somos os The Mônicas”.
Crianças e pais começam a curtir quando a bandinha entoa os primeiros versos de “Uni-duni-tê”. Alguém precisa avisar esses caras sobre essa cacofonia horrível que o nome “The Mônicas” causa. Não gostaria de acreditar que essa sacada “infernal” foi de propósito. O que é que estão fazendo com as nossas crianças, hein?
Mas vamos lá, preciso continuar me ambientando. Onde será que fica o escritório de Bento Mathias?

Vai nos levar pra um mundo de magia
Onde a fantasia vai entrar na dança
E quando o brilho do amor chegar
Quero é mais brincar, melhor é ser criança

Uni, duni, duni, tê, oooh ooohh
Salamê minguê, oooh oooh
Sorvete colorê, sonho encantado
Onde está você?

Eu disse que essas músicas infantis são grudentas. Mas eu não esperava ser fisgado na armadilha da nostalgia tão sorrateiramente. Fazer cover de Trem da Alegria é muita sacanagem pro meu coração.
Esbarro num dos 300 palhaços que zanzam pra lá e pra cá. Mas não é qualquer esbarrão. O camarada, além de estabanado, acaba por me derramar uma bebida verde na camisa limpíssima.
“Car...amba, bicho!!”, evito um palavrão mais feio, olhando pra enorme mancha que vai se alastrando no meu peito, enquanto o palhaço fica boquiaberto me olhando. “Por que você não olha por onde anda?”
Eu sabia dos riscos desse tipo de acidente, mas tava esperando que uma criança catarrenta acabasse me causando transtornos, não um adulto que ganha a vida usando roupa colorida e um nariz vermelho. Tudo que ele sabe fazer é ficar me olhando com essa cara de tonto, a bocarra aberta como se estivesse articulando um inaudível “ó”. Que ódio!! É por isso que tem muita gente desenvolvendo coulrofobia por aí, de tanto que essas criaturas acabam nos irritando.
“Você pode pelo menos me dizer onde tem um banheiro pra eu poder tentar secar isso?”, eu pergunto meio alto, por causa da música das The Mônicas.
E o palhaço apenas me fita, com os olhos arregalados.
“Você ouviu o que eu disse, cara?”, insisto, começando a sair do sério. Contudo, começo a perceber algo familiar por baixo de toda essa maquiagem. Tem algo nos olhos desse palhaço, algo que começa a despertar meu entendimento para o porquê de ele estar tão surpreso por me ver.
Aos poucos, a cara de abismado dele vai dando lugar à outra emoção. Vejo o semblante dele se transformar e, de repente, não há mais um palhaço, um personagem diante de mim. Há um ser humano cujos olhos estão ficando marejados e a imagem de um homem assustadoramente melancólico se torna nítida pra mim. Essa não!
Minha pressão parece cair quando a verdade me vem como uma marretada na cabeça. Mas pode ser o calor também.
“Sávio!”, ele consegue pronunciar, com aquela voz de que eu quase não me lembro, mas que eu sei reconhecer quando e onde quer que eu escute, mesmo após tantos anos. Sinto como se meu coração estivesse sendo espremido.
“Pai?!”, a voz quase não sai.
E, sob a cantoria contagiante das The Mônicas e o agito de crianças dançando ao som da música, ele e eu permanecemos imóveis, nenhum acreditando que esse reencontro realmente está acontecendo.

Uni, duni, duni, tê, oooh  ooohh
Salamê minguê, ooooh  ooohh
Sorvete Colorê, sonho encantado
Onde está você?


Uni, duni, duni, tê, ooohh ooohhh...